A gente liga a tevê e a formalidade habitual dos noticiários
avisa, em tom profético: “devido à globalização, um problema na economia de um
determinado país pode afetar a economia como um todo”. Mas, para Dona
Teodolina, que hoje completará 70 anos, isso é conversa fiada; para ela, o
único problema que pode haver é nome-feio, é um filho não aparecer pro almoço
de domingo, é mãe solteira. Para Dona Teodolina, não há relação alguma entre a
vida que se leva e o mercado financeiro global.
Na esquina, a mesma coisa. Quando as vendas pioram, Seu Zé,
dono de barraquinha de cachorro-quente, diz, nas conversas surgidas por acaso,
que antigamente se vendia mais, que o preço das coisas subiu muito, diz, como
quem diz o que pensa, pra chamar clientes, e, no auge do debate, Seu Zé se
arrisca e sentencia “a crise vai acabar com os negócios”. O cliente não sabe,
mas Seu Zé sabe – amanhã a conversa continua, amanhã mais um cachorro sai.
Na universidade, o professor discursa sobre o chamado “pensamento
científico”, mas o aluno, com a autonomia de quem ainda é jovem, formula suas
próprias teses, baseadas no conhecimento prático, ou na leitura dos livros
não-convencionais.
No fundo, pouco importa se os investidores estão sujeitos
ao risco associado à interdependência entre os diversos mercados financeiros
capitalistas, pois isso não é palpável, não é tangível; no fundo, o que Dona
Teodolina, Seu Zé e os universitários querem é viver a vida, tocar, sentir,
cada um a seu modo, agora, nesse exato momento, sem a interferência de vozes do
além.
Jack Kerouac falava sobre estas coisas, sem necessariamente
tocar no assunto: “O bar ideal não existe na América. Um bar ideal é algo fora
do nosso alcance. Em 1910 um bar era um lugar onde os homens iam se encontrar
durante ou depois do trabalho e tudo o que havia era um longo balcão, corrimãos
de metal, escarradeiras, uma pianola para o fundo musical, uns espelhos e
barris de uísque a dez centavos a dose ao lado de barris de cerveja a cinco
centavos a caneca. Agora tudo o que há são enfeites cromados, mulheres bêbadas,
veados, barmens hostis, proprietários angustiados espreitando nas portas
preocupados com seus bancos de couro e com a polícia; gritaria em momentos
inoportunos e um silêncio mortal quando entra um estranho” (p.282).
[KEROUAC, Jack. Pé na Estrada. Porto Alegre: L&PM
POCKET, 2011. Tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito]
Belíssimo: "Na universidade, o professor discursa sobre o chamado 'pensamento científico', mas o aluno, com a autonomia de quem ainda é jovem, formula suas próprias teses, baseadas no conhecimento prático, ou na leitura dos livros não-convencionais".
ResponderExcluirComo diria Carlos Drummond de Andrade:
ResponderExcluir"Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação".
Sem teorias...