quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O maior de todos os tupiniquins

Estava refletindo sobre a importância de Luiz Inácio Lula da Silva: qual o seu lugar na História do Brasil?
A título de comparação, fui puxando pela memória alguns nomes, tais como:
Aleijadinho, símbolo maior do nosso barroco; Tiradentes, transformado em mártir da Inconfidência; Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra. Personagens antigos, dos quais ouvimos falar no ginásio. Continuei avançando no tempo. Getúlio Vargas, o pai dos pobres; Pelé, o rei do futebol; Heitor Villa-Lobos, gigante da música brasileira; Santos Dumont, o pai da aviação; Machado de Assis, gênio maior de nossa literatura; entre tantos outros.
Porém, por mais que medisse e comparasse e calculasse e puxasse, o resultado era sempre o mesmo: Lula.
Não há, no Brasil, quem tenha sacudido tanto a História quanto ele. Primeiro presidente vindo da classe operária em mais de 500 anos, semianalfabeto capaz de fazer discurso “pra inglês ver”, retirante da seca que colocou um país em desenvolvimento no centro do mundo, torneiro mecânico que comandou uma das maiores transformações sociais de nosso tempo, maior líder popular que a América Latina produziu no século XXI, o homem que quitou a dívida com o FMI e recebeu títulos de doutor honoris causa de universidades dentro e fora do país.
Em importância, permanência e força simbólica, ninguém foi tanto quanto esse homem. Dai a César o que é de César: senhoras e senhores deste meu Brasil varonil, estamos diante do maior personagem de nossa História.
Talvez porque poucas trajetórias contêm tanto sobre o próprio Brasil quanto a dele. É a história de quem nasceu do lado de fora do palácio e, contra todas as probabilidades, atravessou a porta principal.
Daí a dificuldade de olhar Lula com serenidade. Haverá quem o reduza a acusações e diga, com desprezo: “um pilantra não pode ser o maior da nossa História”. Mas, por trás do insulto, às vezes ecoam palavras menos confessáveis: “um pobre”, “um sem dedo”, “um nordestino”, “um comunista”. Mas há um fato incômodo para quem pretende simplesmente apagá-lo: Lula aconteceu.
Uma parcela das elites brasileiras parece ter dificuldade em conceber o desenvolvimento do país como um processo que necessariamente envolve a inclusão econômica e social de grupos historicamente marginalizados. Para quem sempre teve acesso à educação, ao consumo, às viagens e às melhores oportunidades profissionais, é relativamente fácil enxergar o progresso apenas pela perspectiva individual. Sonhar com a Range Rover, com o último iPhone, com a camisa da Lacoste, com a viagem à Flórida. Enxergar o país pela janela do próprio conforto e, quase sempre, sem ultrapassar o horizonte do próprio nariz.
O problema não está, evidentemente, em desejar uma vida confortável. Está em imaginar que uma sociedade possa ser considerada bem-sucedida enquanto essas possibilidades permanecem restritas a uma parcela relativamente pequena da população. Um país não se desenvolve apenas quando seus grupos mais ricos conseguem consumir mais, mas quando aqueles que estavam à margem também ampliam suas oportunidades.
Talvez por isso seja tão curiosa a noção de patriotismo de certos grupos: vão à Avenida Paulista, inflam um foguete com as cores dos Estados Unidos, encenam a implosão do Brasil e depois explicam aos outros como se deve amar a pátria.
São os mesmos que anunciam, pela enésima vez, que o Brasil está prestes a virar uma Venezuela, repetem qualquer história que confirme suas convicções e decretam que nada do que o PT realizou tem valor porque poderia ter realizado mais. É uma régua interessante: para a esquerda, cobra-se até aquilo que ela não fez; para a direita radical, às vezes basta aquilo que ela diz ser.
Gente que nunca abriu Marx nem Hayek, desconhece Keynes e Walras, ou mesmo um autor fundamental para compreender o Brasil, como Celso Furtado, mas que já solucionou capitalismo, socialismo, Estado e mercado com dois vídeos, três memes e uma confiança absolutamente impermeável à dúvida. Questões que ocuparam gerações inteiras de economistas, filósofos e historiadores, resumidas numa tarde de rede social.
Dizer o quê? “Ideologia, eu quero uma pra viver?” Sei lá.
As pesquisas mostram um país dividido. De um lado, Flávio Bolsonaro tenta vender como renovação política aquilo que carrega no sobrenome. Acusações e controvérsias se acumulam ao redor de sua candidatura. Morte de criança, lavagem de dinheiro, milícia. Até as riquezas do subsolo brasileiro entraram na conversa: terras raras, minerais críticos e uma aproximação estratégica com os Estados Unidos.
No debate, Lula propôs que ambos permitissem a abertura dos sigilos bancários e telefônicos. Flávio Bolsonaro esquivou-se, preferiu responder acusando o adversário. É um método conhecido: quando a pergunta aperta, muda-se o acusado. Lula, por sua vez, protocolou documento no TSE e no STF em que diz que libera a divulgação de sigilos dele e de parentes se Flávio também o fizer.
Sua história suporta o exame. E agora? O que não dá é pedir que o Brasil feche os olhos, faça um ato de fé e chame Flávio Bolsonaro de futuro.
Mas minha defesa de Lula não se resuma à questão moral. Defendo-o porque, quando olho para a história recente do Brasil, reconheço nele algo que não encontro no bolsonarismo: um projeto de país que, com todos os seus erros e contradições, ainda enxerga desenvolvimento econômico, redução das desigualdades, democracia e soberania nacional como partes de uma mesma construção.
Podem chamar de esquerda. De ideologia. De lulismo. Do que quiserem.
Eu prefiro chamar de escolha.
E, enquanto puder escolher, escolherei o Brasil em que ainda consigo acreditar. No Brasil daquele pernambucano que saiu de Garanhuns para se tornar o maior personagem tupiniquim da nossa História.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Brasil, mostra tua cara!

Por volta do início do ano 2000, quase ninguém cursava universidade, a não ser que tivesse condições de pagar ou passasse na federal. As federais, no entanto, ficavam, em sua maioria, nas capitais e, para quem vinha do interior, estudar significava também pagar aluguel, transporte, alimentação e todas as despesas de uma mudança. Para um jovem de família pobre ou de classe média baixa, era um sonho quase impossível. Na outra ponta, as mensalidades das faculdades privadas eram altas, não existiam cursos à distância como hoje e, na prática, o ensino superior era um privilégio. O Brasil reproduzia na educação a sua velha desigualdade: os filhos dos ricos estudavam; os filhos dos pobres trabalhavam.
Como a escolaridade sempre foi um dos principais determinantes da renda, os melhores empregos permaneciam reservados aos filhos daqueles que já podiam pagar pelos estudos. O sistema era quase perfeito em sua crueldade: os ricos herdavam oportunidades; os pobres, obstáculos. O mérito, tão celebrado nos discursos, começava com endereço, sobrenome e saldo bancário.
Então veio o PROUNI. Através dele, Lula universalizou o acesso ao ensino superior. Colocou filhos de trabalhadores dentro das universidades e obrigou o país a conviver com algo que parte da elite jamais havia considerado aceitável: pobres ocupando espaços historicamente reservados aos ricos. Desde então, milhões de brasileiros passaram a enxergar o diploma como uma possibilidade real: o ensino superior tornou-se, ainda que imperfeitamente, instrumento de mobilidade social, de emancipação e de redução das desigualdades.
A moradia própria também era privilégio de alguns. Os juros do financiamento habitacional eram altos demais para caber no orçamento de uma família assalariada. Era costume, na época, comprar um terreno e construir aos poucos. Fazia-se uma meia-água, mudava-se para dentro e, conforme sobrava algum dinheiro no fim do mês, levantava-se mais uma parede, ampliava-se um cômodo, colocava-se piso. Quem nem isso conseguia morava de aluguel, construía no terreno de parentes ou buscava espaço nas ocupações irregulares das grandes cidades. A moradia popular quase não despertava interesse do mercado porque havia pouca gente em condições de financiar um imóvel. A construção civil pertencia aos donos de redes de hotéis, aos grandes comerciantes, às famílias de classe média alta.
Então veio o Minha Casa, Minha Vida. Através dele, Lula mudou este cenário. Com juros mais baixos e crédito acessível, a casa própria deixou de ser apenas um desejo distante para milhões de famílias. A construção de moradias populares espalhou-se pelo país. De repente, o pedreiro, a costureira, o motorista, o auxiliar de produção e tantos outros trabalhadores; homens e mulheres acostumados a construir, costurar, transportar e produzir para os outros passaram a acreditar que também tinham o direito de fincar raízes. E, quando a chave finalmente repousou em suas mãos, ela não abriu apenas uma porta: abriu a possibilidade de um futuro que antes lhes era negado. E a construção civil, então, deixou de ser um instrumento de diferenciação social.
Por fim, o Bolsa Família. Durante décadas, a fome foi uma presença constante na história do Brasil. Fazia parte da paisagem. Estava nos livros, nos jornais e na televisão. Era comum ver reportagens sobre famílias que passavam o dia inteiro sem comer ou que sobreviviam com apenas uma refeição. Lula não acabou com a fome. Nenhum governante conseguiria fazê-lo sozinho. Mas fez algo extraordinário: tirou milhões de pessoas da miséria extrema e reduziu drasticamente uma realidade que parecia permanente. Hoje, quando um estudante lê Vidas Secas, talvez tenha dificuldade em imaginar que a fome descrita por Graciliano Ramos não era ficção, mas parte do cotidiano nacional. Que Fabiano não era uma caricatura literária, mas o retrato fiel de uma multidão de homens e mulheres marcados pela miséria e pelo abandono. Sua dor era real. Sua luta era real. Enfim, o que ainda é comum em partes da África Subsaariana tornou-se exceção no Brasil. O país parou de produzir exércitos de Fabianos e sua saída do Mapa da Fome é o marco dessa transformação.
Lula não erradicou a fome do Brasil, mas a empurrou para as margens. Não deu faculdade a todos, mas deu a milhões a oportunidade de estudar. Não resolveu completamente o déficit habitacional, mas tornou possível para muita gente sair do aluguel. Devolveu a dignidade a quem já não existia. Deu voz a quem raramente era ouvido. Liberdade, a quem estava aprisionado! Reduziu a distância entre ricos e pobres. Usou o Estado para corrigir distorções históricas. Revolucionou! Por amor ao próximo, colocou em prática, sem ter cursado academia, as teorias do chamado Welfare State. Sem ter ido ao funeral de Marx, entendeu o recado de Engels: "os homens, antes de tudo, têm primeiro que comer, beber, abrigar-se e vestir-se, antes de se poderem entregar à política, à ciência, à arte, à religião, etc; não o contrário". 

Sem ser comunista, tornou-se um dos maiores democratas de seu tempo. Seu legado ultrapassa partidos, governos e ideologias. Seu lugar já não está nas disputas do presente, mas na memória dos que ajudaram a ampliar os horizontes de seu país. Não apenas um presidente. Um personagem histórico. Não apenas um líder. Um homem que deixou marcas permanentes na vida de milhões. Um herói no sentido mais amplo da palavra.
 
(Agora entendo o que é ser brasileiro. Obrigado, Lula!)

domingo, 1 de julho de 2018

Sal a gosto


Me perguntaram se eu ficaria mais rico com a publicação do meu primeiro livro individual, eu respondi que não, que, inclusive, eu ficaria mais pobre, uma vez que todos os custos de publicação concorreriam por minha conta e que o meu livro, por não ter aptidão para best-seller comercial, dificilmente se tornaria um sucesso de vendas. Por outro lado, tornar-me-ia maior (mais rico) no sentido empregado por Fernando Pessoa: “não sou do tamanho da minha altura, mas do tamanho que eu enxergo”.
A caixa com os 200 exemplares chegara numa terça-feira (26/06/18) – cada um possuía cento e dezoito páginas e mais de oito anos de gestação. Um bebê idealizado nos mínimos detalhes, da imagem de capa às palavras da contracapa, da epígrafe ao texto de orelha, das notas de rodapé ao formato das letras. Era gratificante a sensação de ter, literalmente, dado a luz, de ter me tornado algo impresso, para além de mim mesmo, um escritor em termos formais, com direito a número de ISBN e registro na Biblioteca Nacional.
O livro é recheado de citações. Faz referência a literatos, filósofos, pensadores sociais, trechos de músicas, filmes, quadros etc.. No texto intitulado “Contraponto”, por exemplo, eu me utilizo de 8 passagens de Keynes, todas devidamente assinaladas nas referências bibliográficas, o que sugere a pesquisa e o estudo como parte do processo criativo da obra. Há textos sobre o amor entre homem e mulher (Os opostos se atraem), sobre o amor entre pai e filho (Primeiros passos), sobre sociologia (Castelo de cartas), sobre memórias de infância (Em direção à torcida), sobre a mentalidade pequeno-burguesa (Layout burguês) , sobre o sistema de um modo geral (A saída), sobre a crise do meio ambiente (Retratos de Midway), sobre as relações de trabalho (O pão nosso de cada dia), sobre a morte (Epitáfio), sobre os dilemas existências (O último blues), enfim, a temática do livro é variada e expõe a intenção do autor de tentar emitir uma “opinião a respeito das coisas”. Na contracapa, fala-se um pouco sobre o contexto histórico dessas ideias: “Vivemos, pois, uma época de transição, uma época ainda sem registro em cartório, por se fazer. A escolha de Donald Trump simboliza, de certa maneira, essa lacuna: um fascista no cargo mais importante da Terra. Uma aposta derivada de uma sensação de deslocamento, de não representação – um boicote à própria política, por assim dizer. Em paralelo a isso, um mundo atualizado a cada minuto através de smartphones, um papa moderno e flexível à frente de uma Igreja Católica antiga e conservadora, homens-bomba se explodindo em nome de causas duvidosas, os Rolling Stones fazendo shows em Cuba... Há um século se construindo a partir do que resta do seu antecessor – a literatura deste livro é profundamente influenciada por esta passagem”.
Para finalizar, um trecho de Fernando Nogueira da Costa, prefaciante da obra: “As personagens são orgânicas, bem construídas, não estereotipadas. Há ações, rápidas e conexas entre si. Os diálogos são naturais e úteis. As cenas ou situações são verossímeis. Dispensa as descrições desnecessárias e sem articulação com a narração. Seu estilo transparece naturalidade e harmonia. Os temas são expressivos da nossa vida comum, presente também em outro lugar. A ironia é sutil. O narrar do Alemão ‘re-vela’, isto é, retira o véu que cobre o extraordinário de nossa vida ordinária”.

domingo, 31 de maio de 2015

Mãos Dadas

Prezados leitores,
o blog Uma Opção para Refletir entrará em recesso. Estou envolvido num projeto de livro que está previsto para terminar em agosto de 2015, logo, em função da necessidade de buscar inspiração, de organizar os poemas (já que o livro é de poesia), de digitá-los, de produzi-los, enfim, em função de estar concentrando esforços neste projeto não tenho conseguido me dedicar corretamente para o blog; além disso, fui pai recentemente e a minha vida familiar também tem me ocupado um pouco mais do que de costume.
Não pretendo encerrar minhas atividades como blogueiro, apenas preciso de um tempo para me reorganizar. No futuro – daqui um mês ou daqui dois anos, não sei – planejo criar um site mais incrementado, com diversas páginas, onde as ideias viriam com mais opções de formatos – vídeos, cartoons, poesias, artigos, crônicas – favorecendo a interatividade com o leitor. Mas, para isso, preciso estudar, tanto Web Designer quanto Ciências Humanas, Literatura e áreas relacionadas.
Estou com alguns livros pendentes de leitura, livros que eu comprei a algum tempo, mas que, pela rotina apertada do dia-a-dia, não pude ler; entre eles, estão, em termos de Literatura, A Náusea, de Jean Paul Sartre, Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq, e Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu; em termos de Sociologia, Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, de Marshall Berman; e, em termos de Economia, O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty.
Por fim, gostaria de lhes propor uma breve reflexão, extraída do poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940 - poema esse que, por um motivo ou por outro, soa muito atual. O poeta, numa perspectiva humanista, adquire uma responsabilidade coletiva diante dos acontecimentos, se torna questionador, atuante e passa a deplorar o fato de as pessoas manterem olhos cerrados para o mundo, a ponto de permitirem a violência – a Segunda Guerra Mundial batia à porta da Europa – então ele diz, como se soubesse o que devia ser feito, não só naquela época, mas também agora: “O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Até logo,
Diego.

sábado, 23 de maio de 2015

Leituras

A extraordinária
habilidade do poeta Mário Quintana oferece diferentes pontos de vista ao leitor. O sujeito é capaz de ler o poema Emergência
e achá-lo triste, mas, em outra oportunidade, pode parecer-lho realista ou proposital. Os textos clássicos possuem esta capacidade – de se renovarem diante dos olhos de quem os aprecia. Contudo, não é apenas o poema que se modifica, a alma do sujeito também. E é desta troca ou interação que nasce a poesia sentida: aquela que extrapola o texto escrito, confundindo-se com a vida da pessoa humana. Mário Quintana tinha conhecimento de causa, por isto é que não datava os seus poemas; preferia que eles fossem se encontrando sem hora marcada, com qualquer um que os procurasse, “um mistério encanando com outro mistério”.
Pensar a poesia de Mário Quintana é um esforço sem fim. Senti-la então, é mais difícil ainda. Ela aparece como que por encanto e, como que por encanto, desaparece. Os versos deste alegretense me fazem lembrar do Marcelo, o antigo namorado da minha mãe. Ele era metido à escritor... Certa vez estávamos sentados no sofá assistindo televisão quando o Mário Quintana apareceu num comercial e, junto com a sua imagem, a sua voz e o Poeminha do Contra: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./ Eu passarinho!”. O texto é de um caráter forte e, apesar de ser pequeno em palavras, é grande em conteúdo. Perguntei ao Marcelo qual era mensagem do poema:
- Humildade.
- Como assim?
- “Eles passarão”, no sentido de querer ser mais (maior) do que os outros; “Eu passarinho”, no sentido de ser pequeno, humilde, igual a todo mundo.
Achei fantástica a interpretação, pois era original. Eu jamais compreendera o texto desta forma e, até então, o Poeminha do Contra possuía, pra mim, um único sentido. “Passarão”, de acordo com a minha lógica, indicava o verbo “passar” no futuro do presente e “passarinho”, no jogo de palavras, representava a liberdade e a eternidade do poeta, em oposição àqueles que deixariam de existir assim que o corpo morresse.
Como se vê, além de permitir uma segunda leitura, o texto clássico possui uma segunda interpretação. Não existe uma lógica na poesia, mas duas, três, que se multiplicam na medida em que se tornam sentimentos.