Abri a obra “Um amigo de Kafka”, de Isaac Bashevis Singer,
vencedor do Prêmio Nobel de 1978, e escolhi um conto para ler. O primeiro
parágrafo, no entanto, não me agradou, nem o segundo, nem o terceiro... achei o
texto meio “ideologizado demais”; mesmo assim segui e, apesar de não ter
gostado do estilo do escritor, selecionei algumas passagens marcantes, que me
fizeram refletir.
Depois de duas páginas, a música “Imagine” me veio à
cabeça, as ideias de John Lennon – “um mundo sem fronteiras”, “sem religião”,
“uma irmandade de pessoas” – tudo isso me veio à cabeça, quando li esse trecho
do livro: “[...] afinal, o que é um filho? O que torna o meu sêmen mais meu do
que o de outra pessoa? Qual é o valor de uma ligação de carne e sangue? Somos
todos espuma do mesmo caldeirão. Retroceda algumas gerações e toda essa
multidão de estranhos provavelmente teve um avô em comum. E daqui a duas ou
três gerações, os descendentes desses que são parentes agora serão estranhos. É
tudo temporário e passageiro: somos bolhas do mesmo oceano [...]. Se não se
pode amar todo o mundo, não se deve amar ninguém” (p.252).
Só que tudo isso é muito utópico, a realidade que a gente
vive não tem essa poesia toda. Crianças de três anos são molestadas por
pedófilos; na Idade Média, inocentes foram queimados na fogueira; Jesus Cristo
foi crucificado; na África, ainda hoje, muita gente morre de fome;
parafraseando Belchior, “nem tudo é divino, nem tudo é maravilhoso”. Então, como
se soubesse disso, Isaac Singer disse: “Raciocinei que no caos existem leis
precisas. Os mortos continuam mortos. Os vivos têm suas recordações, cálculos e
projetos. Em alguma vala da Polônia se encontram as cinzas dos que foram
queimados. Na Alemanha, os antigos nazistas estão deitados em suas camas, cada
qual com a sua lista de assassinatos, torturas, estupros. Em algum lugar deve
existir um Onisciente que conhece os pensamentos de cada ser humano, que
conhece as dores de cada mosca, que conhece cada cometa e meteoro, cada molécula
da mais distante galáxia. Dirigi-me a ele. Bom, Todo-Poderoso Onisciente, para
o senhor tudo é justo. Conhece o todo e possui todas as informações... e é por
isso que é tão esperto. Mas o que vou fazer com os meus farelos de fatos?”
(p.253).
[SINGER, Isaac Bashevis. Um amigo de Kafka. In: O Filho.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008. Tradução de Lia Wyler]
Farelos de fatos: mais um dia, um telefonema, um cumprimento, o vizinho que passa, um dia de trabalho, os programas de televisão, cachorros, gatos, carros, tudo isso e mais um pouco, misturado, se misturando, a vida.
ResponderExcluirComo encontrar
a agulha de um fato
em um palheiro de metáforas?