Quando se fala em poema, logo se pensa num texto; quando se
fala em poesia, logo se pensa num livro de poemas. No entanto, como diz o
ditado, nem tudo é o que parece: um poema pode não ser um texto e a poesia nem
sempre é um livro. “[...] há poesias sem poemas; paisagens, pessoas e fatos
podem ser poéticos” (p.16), disse Octavio Paz. Sartre, em uma das passagens de A Idade da Razão, se refere ao tema: “Havia pessoas que não existiam, eram
vapores, e outras que existiam demais. O barman, por exemplo. Pouco antes
fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era
demasiado barman, sacudia o shaker, abria-o, escorria a espuma amarela nos copos,
com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman”. Em outras
palavras, um cachorro passeando na rua pode ser poético, uma tarde de domingo
pode ser poética, um filme na televisão pode ser poético, um jantar pode ser
poético... é de um estado de espírito que estamos falando, de um fluído, e por se
tratar de algo que não pode ser tocado, do mesmo modo, uma música pode não ser
poética, um poema, pasmem, pode não ser poético: “um soneto [por exemplo] não é
um poema mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico –
estrofes, metros e rimas – foi tocado pela poesia ” (p.16). Ou seja, uma coisa
não está obrigatoriamente relacionada à outra, porém, é preciso frisar que o
poema é, por excelência, "o lugar de encontro entre a poesia e homem” (p.17).
Percebendo-se disto, os idealizadores do movimento
denominado “Poema-Processo”, lançaram a arte poética como algo que podia ser
dissociado do texto – um poema, nesta acepção, sob a forma de um signo
universal, poderia designar uma passeata ou uma performance coletiva, assim,
poema (obra) e poesia (espírito) se fundiriam completamente dentro de uma coisa
só.
Bukowski preferia a palavra estilo para definir a
diferença entre um e outro. “Boxe pode
ser uma arte/ amar pode ser uma arte/ abrir uma lata de sardinha pode ser uma
arte”, dizia, “fazer algo estúpido com estilo é preferível a fazer algo
perigoso sem estilo/ poucos tem estilo/ poucos tem poesia”. Octavio Paz concorda: “O poeta utiliza, adapta ou imita o fundo comum de sua época - isto é, o estilo de seu tempo -, porém, modifica [quando consegue] todos esses materiais e realiza uma obra única" (p.20-21). Conclui-se, pois, que: "O poeta se alimenta de estilos. Sem eles não haveria poemas" (p.21).
[PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1982]
"A poesia converte a pedra, a cor, a palavra e o som em imagens. E essa segunda característica, o fato de serem imagens, e o estranho poder de suscitarem no ouvinte ou no espectador constelações de imagens, transforma em poemas todas as obras de arte" (Octavio Paz).
ResponderExcluirO poema é mediação: graças a ele, o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A leitura do poema mostra grande semelhança com a criação poética. O poeta cria imagens, poemas; o poema faz do leitor imagem, poesia" (Octavio Paz).
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