quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Brasil, mostra tua cara!

Por volta do início do ano 2000, quase ninguém cursava universidade, a não ser que tivesse condições de pagar ou passasse na federal. As federais, no entanto, ficavam, em sua maioria, nas capitais e, para quem vinha do interior, estudar significava também pagar aluguel, transporte, alimentação e todas as despesas de uma mudança. Para um jovem de família pobre ou de classe média baixa, era um sonho quase impossível. Na outra ponta, as mensalidades das faculdades privadas eram altas, não existiam cursos à distância como hoje e, na prática, o ensino superior era um privilégio. O Brasil reproduzia na educação a sua velha desigualdade: os filhos dos ricos estudavam; os filhos dos pobres trabalhavam.
Como a escolaridade sempre foi um dos principais determinantes da renda, os melhores empregos permaneciam reservados aos filhos daqueles que já podiam pagar pelos estudos. O sistema era quase perfeito em sua crueldade: os ricos herdavam oportunidades; os pobres, obstáculos. O mérito, tão celebrado nos discursos, começava com endereço, sobrenome e saldo bancário.
Então veio o PROUNI. Através dele, Lula universalizou o acesso ao ensino superior. Colocou filhos de trabalhadores dentro das universidades e obrigou o país a conviver com algo que parte da elite jamais havia considerado aceitável: pobres ocupando espaços historicamente reservados aos ricos. Desde então, milhões de brasileiros passaram a enxergar o diploma como uma possibilidade real: o ensino superior tornou-se, ainda que imperfeitamente, instrumento de mobilidade social, de emancipação e de redução das desigualdades.
A moradia própria também era privilégio de alguns. Os juros do financiamento habitacional eram altos demais para caber no orçamento de uma família assalariada. Era costume, na época, comprar um terreno e construir aos poucos. Fazia-se uma meia-água, mudava-se para dentro e, conforme sobrava algum dinheiro no fim do mês, levantava-se mais uma parede, ampliava-se um cômodo, colocava-se piso. Quem nem isso conseguia morava de aluguel, construía no terreno de parentes ou buscava espaço nas ocupações irregulares das grandes cidades. A moradia popular quase não despertava interesse do mercado porque havia pouca gente em condições de financiar um imóvel. A construção civil pertencia aos donos de redes de hotéis, aos grandes comerciantes, às famílias de classe média alta.
Então veio o Minha Casa, Minha Vida. Através dele, Lula mudou este cenário. Com juros mais baixos e crédito acessível, a casa própria deixou de ser apenas um desejo distante para milhões de famílias. A construção de moradias populares espalhou-se pelo país. De repente, o pedreiro, a costureira, o motorista, o auxiliar de produção e tantos outros trabalhadores; homens e mulheres acostumados a construir, costurar, transportar e produzir para os outros passaram a acreditar que também tinham o direito de fincar raízes. E, quando a chave finalmente repousou em suas mãos, ela não abriu apenas uma porta: abriu a possibilidade de um futuro que antes lhes era negado. E a construção civil, então, deixou de ser um instrumento de diferenciação social.
Por fim, o Bolsa Família. Durante décadas, a fome foi uma presença constante na história do Brasil. Fazia parte da paisagem. Estava nos livros, nos jornais e na televisão. Era comum ver reportagens sobre famílias que passavam o dia inteiro sem comer ou que sobreviviam com apenas uma refeição. Lula não acabou com a fome. Nenhum governante conseguiria fazê-lo sozinho. Mas fez algo extraordinário: tirou milhões de pessoas da miséria extrema e reduziu drasticamente uma realidade que parecia permanente. Hoje, quando um estudante lê Vidas Secas, talvez tenha dificuldade em imaginar que a fome descrita por Graciliano Ramos não era ficção, mas parte do cotidiano nacional. Que Fabiano não era uma caricatura literária, mas o retrato fiel de uma multidão de homens e mulheres marcados pela miséria e pelo abandono. Sua dor era real. Sua luta era real. Enfim, o que ainda é comum em partes da África Subsaariana tornou-se exceção no Brasil. O país parou de produzir exércitos de Fabianos e sua saída do Mapa da Fome é o marco dessa transformação.
Lula não erradicou a fome do Brasil, mas a empurrou para as margens. Não deu faculdade a todos, mas deu a milhões a oportunidade de estudar. Não resolveu completamente o déficit habitacional, mas tornou possível para muita gente sair do aluguel. Devolveu a dignidade a quem já não existia. Deu voz a quem raramente era ouvido. Liberdade, a quem estava aprisionado! Reduziu a distância entre ricos e pobres. Usou o Estado para corrigir distorções históricas. Revolucionou! Por amor ao próximo, colocou em prática, sem ter cursado academia, as teorias do chamado Welfare State. Sem ter ido ao funeral de Marx, entendeu o recado de Engels: "os homens, antes de tudo, têm primeiro que comer, beber, abrigar-se e vestir-se, antes de se poderem entregar à política, à ciência, à arte, à religião, etc; não o contrário". 

Sem ser comunista, tornou-se um dos maiores democratas de seu tempo. Seu legado ultrapassa partidos, governos e ideologias. Seu lugar já não está nas disputas do presente, mas na memória dos que ajudaram a ampliar os horizontes de seu país. Não apenas um presidente. Um personagem histórico. Não apenas um líder. Um homem que deixou marcas permanentes na vida de milhões. Um herói no sentido mais amplo da palavra.
 
(Agora entendo o que é ser brasileiro. Obrigado, Lula!)