Um grande poema não precisa necessariamente de um grande
poeta. Isto porque não é preciso “pertencer à vanguarda” para tanto, não é preciso
conhecer todas as regras gramaticais, não é preciso conhecer as diversas
correntes literárias, não é preciso ter lido muitos livros, não é preciso saber
escrever muitas linhas, enfim, não é preciso muito para se fazer um grande
poema. Veja:
Amores Modernos:
começo,
e-mail
e fim.
(Pedro Gabriel)
dois braços
duas pernas
dois olhos
vinte dedos
e um só cérebro
tá aí o erro.
(Gustavo Souza)
Oitenta.
Oi, tenta.
Oitenta vezes, se necessário
Mas tenta.
(Autor desconhecido)
No livro "Cartas a Um Jovem Poeta", Rainer Maria Rilke se
refere à arte de fazer poesia como algo próprio do serumano, de sua alma, de
seu íntimo; talvez seja esse o grande segredo: “Mesmo que se encontrasse numa
prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus
ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza,
esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela [...]. Se depois desta
volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em
perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as
revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade
natural, um pedaço e uma voz de vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por
necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente”
(p.23-24).
[RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Porto
Alegre: Editora Globo, 9° ed., 1978]