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sábado, 13 de dezembro de 2014

Fórmula Poética: Ensimesmar-se

Um grande poema não precisa necessariamente de um grande poeta. Isto porque não é preciso “pertencer à vanguarda” para tanto, não é preciso conhecer todas as regras gramaticais, não é preciso conhecer as diversas correntes literárias, não é preciso ter lido muitos livros, não é preciso saber escrever muitas linhas, enfim, não é preciso muito para se fazer um grande poema. Veja:

Amores Modernos:
começo,
e-mail
e fim.
(Pedro Gabriel)

dois braços
duas pernas
dois olhos
vinte dedos
e um só cérebro

tá aí o erro.
(Gustavo Souza)

Oitenta.
Oi, tenta.
Oitenta vezes, se necessário
Mas tenta.
(Autor desconhecido)

No livro "Cartas a Um Jovem Poeta", Rainer Maria Rilke se refere à arte de fazer poesia como algo próprio do serumano, de sua alma, de seu íntimo; talvez seja esse o grande segredo: “Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela [...]. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente” (p.23-24).

[RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Porto Alegre: Editora Globo, 9° ed., 1978]