"No período medieval, entre os séculos V e
XV, a vida de uma família camponesa que morasse em alguma região do sul da
Europa pouco ou nada tinha a ver com a vida de uma família camponesa que
habitasse o norte do mesmo continente. Isto se torna mais claro quando se
investiga a economia da época: 'A
família camponesa medieval não só produzia seus próprios produtos de consumo
pessoal; construía também a própria casa; fabricava os próprios móveis e
utensílios domésticos; fazia as próprias roupas. De fato, o camponês ia ao
mercado, mas lá vendia tão somente os excedentes de sua produção. Deixando de
visitá-lo, ele talvez comprometesse sua comodidade, no entanto, jamais a
própria existência' (KAUTSKY, Karl. A
Questão Agrária. 1986, p.17).
A partir da Revolução Industrial Inglesa (1764)
isto se inverte; a existência passa a ser determinada pelo mercado: '[...] nossa
vida diária é afetada permanentemente por algumas das duzentas companhias
maiores' (HUBERMAN, Leo.
História da Riqueza do Homem. 1981,
p.267). Ao levantar-se, o indivíduo veste o uniforme;
durante o café, bebe leite;
ao escovar os dentes, usa creme
dental; no emprego, senta-se diante de um computador;
na rua, vê carros passando; durante o almoço, assiste ao telejornal; as três da tarde
seu celular toca; pouco antes do fim do
expediente, compra mais um maço de cigarros;
na volta pra casa, vê um tênis na vitrine; já em casa, ouve música em
um rádio; antes de dormir,
toma banho em um chuveiro
elétrico; antes de se deitar no colchão,
tira os sapatos e apaga a lâmpada... Cada um dos itens
sublinhados é produzido por cinco ou seis grandes empresas do respectivo ramo.
Assim, mais do que um novo tipo de economia, tem-se um novo tipo de
civilização, de caráter industrial."
[Extraído de: Diego Araújo da Rosa. Formação do Mercado Mundial e Aburguesamento. UNESC, 2010, p.11]
