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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mitos Sociais

Existe por detrás do sujeito comum um tipo psicológico personificado por um mito, isto é, por uma ‘pessoa’ ou ideia que adquiriu força e poder ao longo do tempo e que, por essa força e poder, é imitada em termos comportamentais.
Na civilização pós-industrial (dias de hoje) destacam-se alguns mitos sociais, a saber, o do artista autodestrutivo, o do conto de fadas, o do sonho americano, entre outros. Cada um destes mitos justifica-se, como tal, através de um conjunto de mecanismos – filmes, livros, ídolos, mídia – e se consolidou por meio de um processo histórico.
O mito do artista autodestrutivo, para exemplificar, é uma ideia criada há mais de 200 anos, no alvorecer da Revolução Industrial, sobre como deveriam viver os sonhadores. Para os poetas românticos do século XIX (Rimbaud, Byron), o artista deveria ser, necessariamente, um rebelde e marginal, guiado apenas por suas emoções, insubmisso às regras sociais que regem a vida dos mortais comuns. Foi assim que viveram os pintores da chamada belle époque (Modigliani, Picasso) e os roqueiros da segunda metade do século XX (Keith Richards, Kurt Cobain, Jimi Hendrix). Na análise de uma das mais influentes críticas culturais norte-americanas, Camile Paglia, “estes artistas buscavam inspiração em sua dor e caos interno e tinham medo da banalidade da vida cotidiana, por isso afastavam a realidade, se entorpecendo com álcool e drogas. Era como se empurrassem, a si mesmos, rumo ao despenhadeiro, para finalmente encontrar a benção da extinção da consciência”.
O mito do conto de fadas, por sua vez, encontra fundamentos até mesmo na Bíblia, com a história do pastor de ovelhas que durante sete anos esperou pela sua amada, a filha mais nova de Labão. Passa pelo cinema hollywoodiano (Ghost, Bonequinha de Luxo), pela figura da mulher idealizada (Marilyn Monroe, Sophia Loren), pela mitologia grega (Afrodite), enfim, percorre toda cultura da humanidade, encontrando seu ponto alto na famosa peça shakespeariana, Romeu e Julieta.
O mito do sonho americano é o mais recente. Representa a ideia de conforto, de uma vida materialmente perfeita; passa pela aquisição de um carro, por uma carreira bem sucedida, por uma família de respeito, por um casamento com alguém de nome e de importância perante a sociedade, pelo poder e pelo status. Este mito encontra suas origens nos anos 1920 norte-americanos, época de uma prosperidade material sem precedentes: “em 1919, havia, nos EUA, 6.771.000 automóveis particulares. Em 1929, nada menos de 23.121.000” (Breno Silveira).
Parafraseando J. M. Keynes, uma das mentes mais brilhantes do século XX, "muitas pessoas práticas, que se julgam isentas de qualquer influência intelectual, são, frequentemente, escravas das idéias de alguém já falecido a muito tempo".