Joguei futebol durante dez anos, numa
escolinha. E outros tantos fora dela. Hoje, mais como analista do que como
peladeiro, assisto às principais partidas. Uma em especial me chamou a atenção:
a que eliminou o Barcelona da Champions. Foi inacreditável. O Chelsea, algoz do
time catalão, se defendeu com 11 atrás. E, pra delírio geral, venceu no
contra-ataque. Os amantes do futebol ficaram decepcionados. Mas, isto não
diminui nem desmerece a grandeza do melhor time de futebol dos últimos dez
anos, pelo menos. Suas lições táticas se multiplicam pelos gramados afora. Não
há equipe no planeta, grande ou pequena, que não imite o Barça. Inclusive nós,
brasileiros. Viva o toque de bola!
Em homenagem ao futebol-bem-jogado, eis aqui
duas belas obras. Um poema e uma crônica.
Em Coríntians (2) vs. Palestra (1), Antônio Castilho de Alcântara
Machado narra um pênalti. De um jogo na década de 1930. O jogador Biagio vinha
com a bola, havia driblado um e se preparava para o chute, quando foi derrubado:
- CA-VA-LO!
Prrrrii!
- Pênalti!
Miquelina pôs a mão
no coração. Depois fechou os olhos. Depois perguntou:
- Quem é que vai
bater, Iolanda?
- O Biagio mesmo.
- Desgraçado.
O medo fez silêncio.
Prrrrii!
Pan!
- Go-o-o-ol!
Coríntians!
(MACHADO, Alcântara. “Coríntians (2) vs.
Palestra (1).” In: Brás, Bexiga e Barra Funda. São Paulo, O Estado de São
Paulo/ Klick Editora, 1999. Páginas 52-53).
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A literalidade da crônica a seguir é comovente.
Dá pra sentir a vida, a experiência do escritor enquanto escritor. A análise, o
entendimento de causa. Tudo feito à mão, de um modo rústico, artesanal. Nem
mais nem menos.
Pelada
De Subúrbio
Nova Iguaçu, quatro
horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o
campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho
cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.
A bola, das brancas,
é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes
que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade
na abstração de uma vitória.
Um chute errado
manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem
demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a
bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos
por um velhinho com jeito de caseiro.
Na terceira a bola ficou
por lá; ou melhor, veio, mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um
homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nú da cintura pra cima.
Era o dono da chácara.
A rapaziada, meio
assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro
do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com
palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um
revólver e disparou seis tiros na bola.
No campo, invadido
pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.
(NOGUEIRA, Armando. Do Livro: “Os melhores da crônica brasileira”, José Olympo Editora – Rio de Janeiro, 1977, pág. 22).
