Estava refletindo sobre a importância de Luiz Inácio Lula da Silva: qual o seu
lugar na História do Brasil?
A título de comparação, fui puxando pela memória alguns nomes, tais como:
Aleijadinho, símbolo maior do nosso barroco; Tiradentes, transformado em mártir da Inconfidência; Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra. Personagens antigos, dos quais ouvimos falar no ginásio. Continuei avançando no tempo. Getúlio Vargas, o pai dos pobres; Pelé, o rei do futebol; Heitor Villa-Lobos, gigante da música brasileira; Santos Dumont, o pai da aviação; Machado de Assis, gênio maior de nossa literatura; entre tantos outros.
Porém, por mais que medisse e comparasse e calculasse e puxasse, o resultado era sempre o mesmo: Lula.
Não há, no Brasil, quem tenha sacudido tanto a História quanto ele. Primeiro presidente vindo da classe operária em mais de 500 anos, semianalfabeto capaz de fazer discurso “pra inglês ver”, retirante da seca que colocou um país em desenvolvimento no centro do mundo, torneiro mecânico que comandou uma das maiores transformações sociais de nosso tempo, maior líder popular que a América Latina produziu no século XXI, o homem que quitou a dívida com o FMI e recebeu títulos de doutor honoris causa de universidades dentro e fora do país.
Em importância, permanência e força simbólica, ninguém foi tanto quanto esse homem. Dai a César o que é de César: senhoras e senhores deste meu Brasil varonil, estamos diante do maior personagem de nossa História.
Talvez porque poucas trajetórias contêm tanto sobre o próprio Brasil quanto a dele. É a história de quem nasceu do lado de fora do palácio e, contra todas as probabilidades, atravessou a porta principal.
Daí a dificuldade de olhar Lula com serenidade. Haverá quem o reduza a acusações e diga, com desprezo: “um pilantra não pode ser o maior da nossa História”. Mas, por trás do insulto, às vezes ecoam palavras menos confessáveis: “um pobre”, “um sem dedo”, “um nordestino”, “um comunista”. Mas há um fato incômodo para quem pretende simplesmente apagá-lo: Lula aconteceu.
Uma parcela das elites brasileiras parece ter dificuldade em conceber o desenvolvimento do país como um processo que necessariamente envolve a inclusão econômica e social de grupos historicamente marginalizados. Para quem sempre teve acesso à educação, ao consumo, às viagens e às melhores oportunidades profissionais, é relativamente fácil enxergar o progresso apenas pela perspectiva individual. Sonhar com a Range Rover, com o último iPhone, com a camisa da Lacoste, com a viagem à Flórida. Enxergar o país pela janela do próprio conforto e, quase sempre, sem ultrapassar o horizonte do próprio nariz.
O problema não está, evidentemente, em desejar uma vida confortável. Está em imaginar que uma sociedade possa ser considerada bem-sucedida enquanto essas possibilidades permanecem restritas a uma parcela relativamente pequena da população. Um país não se desenvolve apenas quando seus grupos mais ricos conseguem consumir mais, mas quando aqueles que estavam à margem também ampliam suas oportunidades.
Talvez por isso seja tão curiosa a noção de patriotismo de certos grupos: vão à Avenida Paulista, inflam um foguete com as cores dos Estados Unidos, encenam a implosão do Brasil e depois explicam aos outros como se deve amar a pátria.
São os mesmos que anunciam, pela enésima vez, que o Brasil está prestes a virar uma Venezuela, repetem qualquer história que confirme suas convicções e decretam que nada do que o PT realizou tem valor porque poderia ter realizado mais. É uma régua interessante: para a esquerda, cobra-se até aquilo que ela não fez; para a direita radical, às vezes basta aquilo que ela diz ser.
Gente que nunca abriu Marx nem Hayek, desconhece Keynes e Walras, ou mesmo um autor fundamental para compreender o Brasil, como Celso Furtado, mas que já solucionou capitalismo, socialismo, Estado e mercado com dois vídeos, três memes e uma confiança absolutamente impermeável à dúvida. Questões que ocuparam gerações inteiras de economistas, filósofos e historiadores, resumidas numa tarde de rede social.
Dizer o quê? “Ideologia, eu quero uma pra viver?” Sei lá.
As pesquisas mostram um país dividido. De um lado, Flávio Bolsonaro tenta vender como renovação política aquilo que carrega no sobrenome. Acusações e controvérsias se acumulam ao redor de sua candidatura. Morte de criança, lavagem de dinheiro, milícia. Até as riquezas do subsolo brasileiro entraram na conversa: terras raras, minerais críticos e uma aproximação estratégica com os Estados Unidos.
No debate, Lula propôs que ambos permitissem a abertura dos sigilos bancários e telefônicos. Flávio Bolsonaro esquivou-se, preferiu responder acusando o adversário. É um método conhecido: quando a pergunta aperta, muda-se o acusado. Lula, por sua vez, protocolou documento no TSE e no STF em que diz que libera a divulgação de sigilos dele e de parentes se Flávio também o fizer.
Sua história suporta o exame. E agora? O que não dá é pedir que o Brasil feche os olhos, faça um ato de fé e chame Flávio Bolsonaro de futuro.
Mas minha defesa de Lula não se resuma à questão moral. Defendo-o porque, quando olho para a história recente do Brasil, reconheço nele algo que não encontro no bolsonarismo: um projeto de país que, com todos os seus erros e contradições, ainda enxerga desenvolvimento econômico, redução das desigualdades, democracia e soberania nacional como partes de uma mesma construção.
Podem chamar de esquerda. De ideologia. De lulismo. Do que quiserem.
Eu prefiro chamar de escolha.
E, enquanto puder escolher, escolherei o Brasil em que ainda consigo acreditar. No Brasil daquele pernambucano que saiu de Garanhuns para se tornar o maior personagem tupiniquim da nossa História.
A título de comparação, fui puxando pela memória alguns nomes, tais como:
Aleijadinho, símbolo maior do nosso barroco; Tiradentes, transformado em mártir da Inconfidência; Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra. Personagens antigos, dos quais ouvimos falar no ginásio. Continuei avançando no tempo. Getúlio Vargas, o pai dos pobres; Pelé, o rei do futebol; Heitor Villa-Lobos, gigante da música brasileira; Santos Dumont, o pai da aviação; Machado de Assis, gênio maior de nossa literatura; entre tantos outros.
Porém, por mais que medisse e comparasse e calculasse e puxasse, o resultado era sempre o mesmo: Lula.
Não há, no Brasil, quem tenha sacudido tanto a História quanto ele. Primeiro presidente vindo da classe operária em mais de 500 anos, semianalfabeto capaz de fazer discurso “pra inglês ver”, retirante da seca que colocou um país em desenvolvimento no centro do mundo, torneiro mecânico que comandou uma das maiores transformações sociais de nosso tempo, maior líder popular que a América Latina produziu no século XXI, o homem que quitou a dívida com o FMI e recebeu títulos de doutor honoris causa de universidades dentro e fora do país.
Em importância, permanência e força simbólica, ninguém foi tanto quanto esse homem. Dai a César o que é de César: senhoras e senhores deste meu Brasil varonil, estamos diante do maior personagem de nossa História.
Talvez porque poucas trajetórias contêm tanto sobre o próprio Brasil quanto a dele. É a história de quem nasceu do lado de fora do palácio e, contra todas as probabilidades, atravessou a porta principal.
Daí a dificuldade de olhar Lula com serenidade. Haverá quem o reduza a acusações e diga, com desprezo: “um pilantra não pode ser o maior da nossa História”. Mas, por trás do insulto, às vezes ecoam palavras menos confessáveis: “um pobre”, “um sem dedo”, “um nordestino”, “um comunista”. Mas há um fato incômodo para quem pretende simplesmente apagá-lo: Lula aconteceu.
Uma parcela das elites brasileiras parece ter dificuldade em conceber o desenvolvimento do país como um processo que necessariamente envolve a inclusão econômica e social de grupos historicamente marginalizados. Para quem sempre teve acesso à educação, ao consumo, às viagens e às melhores oportunidades profissionais, é relativamente fácil enxergar o progresso apenas pela perspectiva individual. Sonhar com a Range Rover, com o último iPhone, com a camisa da Lacoste, com a viagem à Flórida. Enxergar o país pela janela do próprio conforto e, quase sempre, sem ultrapassar o horizonte do próprio nariz.
O problema não está, evidentemente, em desejar uma vida confortável. Está em imaginar que uma sociedade possa ser considerada bem-sucedida enquanto essas possibilidades permanecem restritas a uma parcela relativamente pequena da população. Um país não se desenvolve apenas quando seus grupos mais ricos conseguem consumir mais, mas quando aqueles que estavam à margem também ampliam suas oportunidades.
Talvez por isso seja tão curiosa a noção de patriotismo de certos grupos: vão à Avenida Paulista, inflam um foguete com as cores dos Estados Unidos, encenam a implosão do Brasil e depois explicam aos outros como se deve amar a pátria.
São os mesmos que anunciam, pela enésima vez, que o Brasil está prestes a virar uma Venezuela, repetem qualquer história que confirme suas convicções e decretam que nada do que o PT realizou tem valor porque poderia ter realizado mais. É uma régua interessante: para a esquerda, cobra-se até aquilo que ela não fez; para a direita radical, às vezes basta aquilo que ela diz ser.
Gente que nunca abriu Marx nem Hayek, desconhece Keynes e Walras, ou mesmo um autor fundamental para compreender o Brasil, como Celso Furtado, mas que já solucionou capitalismo, socialismo, Estado e mercado com dois vídeos, três memes e uma confiança absolutamente impermeável à dúvida. Questões que ocuparam gerações inteiras de economistas, filósofos e historiadores, resumidas numa tarde de rede social.
Dizer o quê? “Ideologia, eu quero uma pra viver?” Sei lá.
As pesquisas mostram um país dividido. De um lado, Flávio Bolsonaro tenta vender como renovação política aquilo que carrega no sobrenome. Acusações e controvérsias se acumulam ao redor de sua candidatura. Morte de criança, lavagem de dinheiro, milícia. Até as riquezas do subsolo brasileiro entraram na conversa: terras raras, minerais críticos e uma aproximação estratégica com os Estados Unidos.
No debate, Lula propôs que ambos permitissem a abertura dos sigilos bancários e telefônicos. Flávio Bolsonaro esquivou-se, preferiu responder acusando o adversário. É um método conhecido: quando a pergunta aperta, muda-se o acusado. Lula, por sua vez, protocolou documento no TSE e no STF em que diz que libera a divulgação de sigilos dele e de parentes se Flávio também o fizer.
Sua história suporta o exame. E agora? O que não dá é pedir que o Brasil feche os olhos, faça um ato de fé e chame Flávio Bolsonaro de futuro.
Mas minha defesa de Lula não se resuma à questão moral. Defendo-o porque, quando olho para a história recente do Brasil, reconheço nele algo que não encontro no bolsonarismo: um projeto de país que, com todos os seus erros e contradições, ainda enxerga desenvolvimento econômico, redução das desigualdades, democracia e soberania nacional como partes de uma mesma construção.
Podem chamar de esquerda. De ideologia. De lulismo. Do que quiserem.
Eu prefiro chamar de escolha.
E, enquanto puder escolher, escolherei o Brasil em que ainda consigo acreditar. No Brasil daquele pernambucano que saiu de Garanhuns para se tornar o maior personagem tupiniquim da nossa História.

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