Airton Senna não foi apenas um piloto de F-1, ele foi muito
mais do que isso, Airton Senna foi um herói. Ele não corria apenas contra seus
adversários, fora das pistas Senna enfrentava os políticos, os patrocinadores,
enfim, poderosos de todas as espécies, a “cede pelo dinheiro”, a prática
antidesportiva, e, mais do que isso, o fato de ser tupiniquim, de ser um “da
Silva”, numa época em que o país enfrentava problemas socioeconômicos
gravíssimos, numa época em que ser brasileiro era motivo de vergonha. Mas Airton
não se intimidou, venceu dentro e fora da pista e, na volta após a bandeirada,
exibiu a bandeira verde e amarela, com orgulho, para que todos – ricos, pobres,
negros, brancos, sulistas, nortistas, cristãos, muçulmanos, pilotos de corrida,
advogados, médicos, jogadores de futebol, adultos, crianças, idosos, homens,
mulheres – todos, sem tirar nem pôr, soubessem quem ele era: uma consciência de
mundo.
Sim, alguém que possuía amor pela verdade, que era capaz de
enxergar além das aparências, que era capaz de pensar em termos coletivos, que
era capaz de ultrapassar os limites do inimaginável, que era capaz de suportar
muito mais do que se pode suportar, alguém que era carregado nos braços pelo
povo, alguém que era a própria esperança do povo, o motivo de orgulho de uma
nação, a matriz-energética do pai de família – que acorda cedo todos os dias e
sai em busca do sustento, que volta cansado à noite, que não descansa no
feriado, que apenas sobrevive, mas que tem fé na vitória – alguém que era um
exemplo para a humanidade, alguém que, como diz a Bíblia, era capaz de mover
montanhas.
Em 1989, no Japão, se Alain Prost ganhasse a corrida
ganharia o campeonato; na largada, Senna caiu pra segundo, mas,
implacavelmente, perseguiu o francês, volta por volta, palmo por palmo,
milésimo por milésimo, até que a oportunidade apareceu; Airton retardou a
freiada e, após a curva à direita, ultrapassaria Prost, o adversário, no
entanto, propositalmente deixou que seu carro se chocasse contra o do
brasileiro e os dois saíram da pista; Senna ainda conseguiria voltar, amparado
pelos fiscais de prova que empurraram a sua McLaren rumo a uma vitória
sensacional; porém, nos bastidores, devido a uma decisão política, Airton foi
desclassificado e o título acabou ficando com o francês. A má-fé do adversário
não havia sido levada em conta, era uma escolha contra o esporte; Balestre, que
comandava a organização na época, era amigo pessoal de Alain e, com a intenção
de “dar uma lição definitiva” no brasileiro, ainda o ameaçou com a suspensão do
campeonato mundial de 1990, caso Senna não se desculpasse publicamente com
todos, além de uma multa de 100 mil dólares. Airton, então, pensou em abandonar
a F-1 – não lhe cabia o papel de idiota. E o teria feito se o dono de sua
equipe, Ron Dennis, não tivesse inventado uma maneira de contornar a situação
através de uma “nota oficial”, onde, supostamente o brasileiro se desculpava.
Era mentira.
A resposta verdadeira viria na pista; o quadro parecia obra
dos deuses: um ano depois, no Japão outra vez, na mesma curva, o mesmo
acidente, e os dois carros – a Ferrari de Prost e a McLaren de Senna – ficaram
atolados na caixa de brita, só que, dessa vez, o título era nosso. “Aqui se
faz, aqui se paga” – Airton dera o troco.
O narrador televisivo, no auge da emoção, descreveu o
episódio, logo após o choque:
- Senna sai do carro... e dá as costas pra Prost.
Parecia uma história de cinema, mas era real: o Brasil
comemorava; o mundo inteiro comemorava.
[Inspirado no documentário Senna: o brasileiro, o herói, o
campeão. Direção de Asif Kapadia e roteiro de Manish Pandey, 2010]
Senna foi, em determinado momento, a consciência do mundo, assim como o foram John Lennon, Gandhi, Pelé, os Beatles, Gabriel García Marquez, Keynes...
ResponderExcluirQuando Senna saiu do carro e deu as costas pra Prost, ele não deu as costas somente para o seu adversário, mas, também, para todo o esquema de interesse que havia nos bastidores: só um herói seria capaz disso.
ResponderExcluirNota: Balestre havia sido membro do exército nazista de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.