domingo, 1 de julho de 2018

Sal a gosto


Me perguntaram se eu ficaria mais rico com a publicação do meu primeiro livro individual, eu respondi que não, que, inclusive, eu ficaria mais pobre, uma vez que todos os custos de publicação concorreriam por minha conta e que o meu livro, por não ter aptidão para best-seller comercial, dificilmente se tornaria um sucesso de vendas. Por outro lado, tornar-me-ia maior (mais rico) no sentido empregado por Fernando Pessoa: “não sou do tamanho da minha altura, mas do tamanho que eu enxergo”.
A caixa com os 200 exemplares chegara numa terça-feira (26/06/18) – cada um possuía cento e dezoito páginas e mais de oito anos de gestação. Um bebê idealizado nos mínimos detalhes, da imagem de capa às palavras da contracapa, da epígrafe ao texto de orelha, das notas de rodapé ao formato das letras. Era gratificante a sensação de ter, literalmente, dado a luz, de ter me tornado algo impresso, para além de mim mesmo, um escritor em termos formais, com direito a número de ISBN e registro na Biblioteca Nacional.
O livro é recheado de citações. Faz referência a literatos, filósofos, pensadores sociais, trechos de músicas, filmes, quadros etc.. No texto intitulado “Contraponto”, por exemplo, eu me utilizo de 8 passagens de Keynes, todas devidamente assinaladas nas referências bibliográficas, o que sugere a pesquisa e o estudo como parte do processo criativo da obra. Há textos sobre o amor entre homem e mulher (Os opostos se atraem), sobre o amor entre pai e filho (Primeiros passos), sobre sociologia (Castelo de cartas), sobre memórias de infância (Em direção à torcida), sobre a mentalidade pequeno-burguesa (Layout burguês) , sobre o sistema de um modo geral (A saída), sobre a crise do meio ambiente (Retratos de Midway), sobre as relações de trabalho (O pão nosso de cada dia), sobre a morte (Epitáfio), sobre os dilemas existências (O último blues), enfim, a temática do livro é variada e expõe a intenção do autor de tentar emitir uma “opinião a respeito das coisas”. Na contracapa, fala-se um pouco sobre o contexto histórico dessas ideias: “Vivemos, pois, uma época de transição, uma época ainda sem registro em cartório, por se fazer. A escolha de Donald Trump simboliza, de certa maneira, essa lacuna: um fascista no cargo mais importante da Terra. Uma aposta derivada de uma sensação de deslocamento, de não representação – um boicote à própria política, por assim dizer. Em paralelo a isso, um mundo atualizado a cada minuto através de smartphones, um papa moderno e flexível à frente de uma Igreja Católica antiga e conservadora, homens-bomba se explodindo em nome de causas duvidosas, os Rolling Stones fazendo shows em Cuba... Há um século se construindo a partir do que resta do seu antecessor – a literatura deste livro é profundamente influenciada por esta passagem”.
Para finalizar, um trecho de Fernando Nogueira da Costa, prefaciante da obra: “As personagens são orgânicas, bem construídas, não estereotipadas. Há ações, rápidas e conexas entre si. Os diálogos são naturais e úteis. As cenas ou situações são verossímeis. Dispensa as descrições desnecessárias e sem articulação com a narração. Seu estilo transparece naturalidade e harmonia. Os temas são expressivos da nossa vida comum, presente também em outro lugar. A ironia é sutil. O narrar do Alemão ‘re-vela’, isto é, retira o véu que cobre o extraordinário de nossa vida ordinária”.

domingo, 31 de maio de 2015

Mãos Dadas

Prezados leitores,
o blog Uma Opção para Refletir entrará em recesso. Estou envolvido num projeto de livro que está previsto para terminar em agosto de 2015, logo, em função da necessidade de buscar inspiração, de organizar os poemas (já que o livro é de poesia), de digitá-los, de produzi-los, enfim, em função de estar concentrando esforços neste projeto não tenho conseguido me dedicar corretamente para o blog; além disso, fui pai recentemente e a minha vida familiar também tem me ocupado um pouco mais do que de costume.
Não pretendo encerrar minhas atividades como blogueiro, apenas preciso de um tempo para me reorganizar. No futuro – daqui um mês ou daqui dois anos, não sei – planejo criar um site mais incrementado, com diversas páginas, onde as ideias viriam com mais opções de formatos – vídeos, cartoons, poesias, artigos, crônicas – favorecendo a interatividade com o leitor. Mas, para isso, preciso estudar, tanto Web Designer quanto Ciências Humanas, Literatura e áreas relacionadas.
Estou com alguns livros pendentes de leitura, livros que eu comprei a algum tempo, mas que, pela rotina apertada do dia-a-dia, não pude ler; entre eles, estão, em termos de Literatura, A Náusea, de Jean Paul Sartre, Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq, e Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu; em termos de Sociologia, Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, de Marshall Berman; e, em termos de Economia, O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty.
Por fim, gostaria de lhes propor uma breve reflexão, extraída do poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940 - poema esse que, por um motivo ou por outro, soa muito atual. O poeta, numa perspectiva humanista, adquire uma responsabilidade coletiva diante dos acontecimentos, se torna questionador, atuante e passa a deplorar o fato de as pessoas manterem olhos cerrados para o mundo, a ponto de permitirem a violência – a Segunda Guerra Mundial batia à porta da Europa – então ele diz, como se soubesse o que devia ser feito, não só naquela época, mas também agora: “O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Até logo,
Diego.

sábado, 23 de maio de 2015

Leituras

A extraordinária
habilidade do poeta Mário Quintana oferece diferentes pontos de vista ao leitor. O sujeito é capaz de ler o poema Emergência
e achá-lo triste, mas, em outra oportunidade, pode parecer-lho realista ou proposital. Os textos clássicos possuem esta capacidade – de se renovarem diante dos olhos de quem os aprecia. Contudo, não é apenas o poema que se modifica, a alma do sujeito também. E é desta troca ou interação que nasce a poesia sentida: aquela que extrapola o texto escrito, confundindo-se com a vida da pessoa humana. Mário Quintana tinha conhecimento de causa, por isto é que não datava os seus poemas; preferia que eles fossem se encontrando sem hora marcada, com qualquer um que os procurasse, “um mistério encanando com outro mistério”.
Pensar a poesia de Mário Quintana é um esforço sem fim. Senti-la então, é mais difícil ainda. Ela aparece como que por encanto e, como que por encanto, desaparece. Os versos deste alegretense me fazem lembrar do Marcelo, o antigo namorado da minha mãe. Ele era metido à escritor... Certa vez estávamos sentados no sofá assistindo televisão quando o Mário Quintana apareceu num comercial e, junto com a sua imagem, a sua voz e o Poeminha do Contra: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./ Eu passarinho!”. O texto é de um caráter forte e, apesar de ser pequeno em palavras, é grande em conteúdo. Perguntei ao Marcelo qual era mensagem do poema:
Humildade.
Como assim?
“Eles passarão”, no sentido de querer ser mais (maior) do que os outros; “Eu passarinho”, no sentido de ser pequeno, humilde, igual a todo mundo.
Achei fantástica a interpretação, pois era original. Eu jamais compreendera o texto desta forma e, até então, o Poeminha do Contra possuía, pra mim, um único sentido. “Passarão”, de acordo com a minha lógica, indicava o verbo “passar” no futuro do presente e “passarinho”, no jogo de palavras, representava a liberdade e a eternidade do poeta, em oposição àqueles que deixariam de existir assim que o corpo morresse.
Como se vê, além de permitir uma segunda leitura, o texto clássico possui uma segunda interpretação. Não existe uma lógica na poesia, mas duas, três, que se multiplicam na medida em que se tornam sentimentos.

sábado, 16 de maio de 2015

Bervely Hills dos Pobres

Escrevi este texto em abril de 2011; é uma crítica sobre a situação socioeconômica da cidade de Torres, Rio Grande do Sul. Acredito que muitos municípios brasileiros enfrentam o mesmo problema, por isso reabro o debate. Originalmente a cônica foi publicada com o título “Palco de uma Tragédia Social”.

Torres é conhecida por ser “a mais bela praia gaúcha”, devido ao imenso conjunto de belezas naturais que possui – rio, mar, dunas, lagoa, morros – e, também, devido às maravilhosas casas que margeiam sua orla, fazendo de Torres a “Bervely Hills dos pobres”.
Dos pobres! pois aqui a maioria da população é de baixa renda, os ricos, donos das mansões, são juízes, jogadores de futebol e empresários bem sucedidos que moram nas regiões mais prósperas do estado ou no centro do país, não são torrenses legítimos, são turistas que vem pra cá passar um final de semana – no inverno o bairro dos magnatas mais parece um deserto, por onde só circulam gatos e cachorros perdidos.  No verão, em contrapartida, a população chega a triplicar, passando dos 35 mil habituais para mais de 100 mil habitantes, ou turistas. Logo, como era de se esperar, a oferta de emprego cresce desproporcionalmente, superando a demanda por vagas. É possível escolher onde trabalhar; já fui garçom, atendente comercial e vigilante, no próximo verão pretendo trabalhar como padeiro (para aprender a fazer bolos). É uma pena que esta situação de pleno-emprego se sustente por tão pouco tempo, se invertendo no inverno. Durante os três meses do verão – dezembro, janeiro e fevereiro – o setor privado emprega toda a mão-de-obra disponível, já nos outros nove meses do ano a taxa de investimento se reduz drasticamente, tanto que cada vaga é disputada por pelo menos oito candidatos, sendo que o salário oferecido é o mínimo. Assim, desenvolveu-se em Torres a chamada “cultura do urso”, que diz “absorva no verão a gordura que irá lhe aquecer no inverno”.
A prefeitura municipal seria um dos órgãos capazes de reverter a imensa tragédia socioeconômica - consequência do desemprego - experimentada anualmente pela belíssima praia gaúcha. Mas, de que modo isto seria possível, se, depois de dez anos, o prefeito abre um concurso público oferecendo apenas 80 vagas? Seriam 80 vagas suficientes para absorver dez anos? Obviamente que não. Para absorver os profissionais que se formam semestralmente seriam necessárias 80 vagas anuais. Neste caso, supondo que Torres fosse uma criança de dez anos de idade, faltariam 720 vagas. Os políticos da cidade argumentariam que nenhuma prefeitura do Brasil seria capaz disto. Eu responderia que nenhuma prefeitura do Brasil seria capaz de levar tanto tempo para organizar um concurso.
De qualquer maneira o que mais indigna não são as 80 vagas, mas a forma como elas estão distribuídas. Não há vagas para vigilante, não há vagas para serviços gerais, não há vagas para motorista, não há vagas para servente... será que o município não precisa destes profissionais? Para os professores do ensino fundamental, mais especificamente de História, Ciências, Geografia e Português são ofertadas apenas quatro vagas, uma para cada área. Em compensação, há 60 vagas para professores de educação infantil. Mas, quem cursa a pré-escola não estará, em poucos anos, cursando o ensino básico e, logo em seguida, o médio? Quer dizer, parece não existir um critério na forma de distribuição das vagas. Isto é um indício de fraude. A título de comparação, quando o marido passa a levar o celular para o banheiro, isto significa, na maioria das vezes, que ele não deseja que a sua esposa atenda-o.
E não para aí. Também não há vagas para médico dentista e nem para advogados, sendo que em Torres há uma universidade que forma a cada seis meses mais de uma dezena desses profissionais. Isto é, não existe relação entre políticas públicas, mercado de trabalho e instituições de ensino. Deste modo, a mais bela praia gaúcha vai se tornando um faroeste, onde a expressão “salve-se quem puder” soa forte como um eco.
Sem emprego as pessoas tornam-se marginais; o estudo, que segundo os institutos de pesquisa seria o responsável pelo aumento da renda e das oportunidades de trabalho, em Torres não é suficiente nem para pagar o aluguel. Neste caso, se o indivíduo não possui uma família que o ampare financeiramente, ele se vê diante de três alternativas: ou se torna usuário de crack, matando assim a humilhação sofrida pelo desemprego; ou se torna crente, e passa a vender doces no comércio; ou vai embora daqui. Muitos dos meus amigos foram embora daqui, para cidades como Criciúma, Caxias do Sul e Porto Alegre, onde, bem ou mal, ainda se consegue um estágio.
Estaria Torres condenada ao abandono político?

sábado, 9 de maio de 2015

Político: sinônimo de ladrão

“Na última quarta-feira (16/12/10) a Câmara aprovou um projeto polêmico: o aumento do salário do presidente da República, de seu vice, dos ministros, deputados federais e senadores, de 16 para 27 mil. A votação ocorreu logo após os deputados aprovarem um requerimento para que este projeto tivesse urgência e, assim, saltasse a fila das votações da Casa”, conforme noticiaram os meios de comunicação. Se os parlamentares se mobilizassem com a mesma ligeireza para resolver assuntos de interesse do povo, certamente que viveríamos no melhor dos mundos possíveis. Mas isso não acontece. A classe política brasileira só se mobiliza de verdade para resolver assuntos de seu interesse, quer dizer, pessoais.
É óbvio que toda essa imoralidade também esta relacionada ao descaso do povo, que assiste a tudo de braços cruzados. Se o assunto for futebol ou novela, o povo debate e até se empolga, agora, em se tratando de política, ninguém sabe de nada. No fundo, uma coisa se alimenta da outra.
Mas não é do povo que eu quero falar aqui. É de político sem-vergonha mesmo. O gari, o servente e a auxiliar de cozinha talvez não cheirem tão bem quanto um deputado ou senador, principalmente porque os primeiros trabalham (suam), e os segundos não. Os primeiros trabalham, e trabalham pesado, enquanto os segundos roubam. Os primeiros ganham pra sobreviver, os segundos, pra desfrutar. Os primeiros cheiram a lixo, a suor e a cebola, respectivamente, enquanto os deputados e senadores exalam perfume francês caríssimo. Os primeiros se vestem com trapos, os segundos, com ternos italianos de alta costura. A política oprime o povo, ao invés de servi-lo – a democracia brasileira funciona mal.
É engraçado isso. Um trabalhador ganhar apenas 2% do que ganha um ladrão, é muito engraçado. E o pior de tudo é que essa exploração descarada é legítima, pois é assegurada e garantida pela constituição do nosso país. Quando questionado sobre o reajuste, o senador Eduardo Suplicy, do PT, disse que “o aumento era condizente com a importância do cargo”. Eu concordo com ele. Mas e os professores e os garçons e os caixas de supermercado e os motoristas e os carteiros não merecem ganhar um salário condizente com a importância do cargo? Obviamente que sim. Então porque só os deputados federais, os senadores, os ministros, o presidente e o vice-presidente têm esse direito assegurado na prática? Não deveriam eles primeiro servir ao povo para depois se servirem?
A indignação toma conta da gente, mas ela não se torna protesto efetivo. A nossa revolta se torna alcoolismo, depressão, vaidade... qualquer coisa, menos política. O povo deve expressar a sua revolta de uma forma mais coerente. Não é com a compra de um par de sapatos novos ou com mais um copo de cachaça que o Brasil deixará de ser o que é. Eu sei que é horrível ouvir o discurso de um político, porque ele mente o tempo inteiro; mas, não é por eles que a gente deve participar, é por nós mesmos. Afinal, político é uma coisa e política é outra. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Revolução Moral

Na Etiópia, quando um homem engravida uma mulher antes do casamento, os envolvidos, direta e indiretamente, são condenados à morte. O “criminoso” é enterrado até o pescoço e depois recebe pedradas na cabeça; o pai da “criminosa” é fuzilado e a gestante permanece viva somente até o nascimento da criança. É olho por olho e dente por dente.
Ao assistir às cenas do apedrejamento – exibidas numa reportagem de Roberto Cabrini – fiquei horrorizado. O homem, no instinto, tentava desviar a cabeça, mas não havia chance – as pedras eram do tamanho de tijolos. Depois de um minuto ou dois ele parou de se mexer; eu também não me mexia, estava em choque; rezava para que fosse mentira, mas era verdade: o crânio do pobre-diabo havia sido amassado pelos golpes.
Naquela parte do mundo as coisas funcionavam assim, naquela parte do mundo quem infringisse as leis morria deste jeito – era cultural. Não sei se esta era a melhor maneiro de resolver os problemas, mas o “temor da morte violenta” certamente que inibia ou, no mínimo, fazia com que os infratores pensassem duas vezes antes de praticar atos proibidos. Naquela parte do mundo as coisas funcionava assim – para o bem ou para o mal. No Brasil as coisas não funcionam de nenhum jeito. Numa denúncia feita a um programa de televisão, os vereadores de Bela Vista – capital de Roraima – falsificavam notas fiscais, inventavam cursos de conteúdo sem memória e viagens para destinos que nunca foram e, quando questionados à respeito, faziam cara de deboche e desconversavam, certos da impunidade.
Sou contra matar pessoas a pedradas, mas se estes corruptos temessem alguma coisa, nem que fossem dez tapas na cara em praça pública, sem dúvida que a roubalheira iria diminuir. Já imaginou o Paulo Roberto Costa com a marca dos cinco dedos na bochecha? ou aquele cabelo, todo penteadinho do juiz Nicolau dos Santos Neto, revirado pelas bofetadas? Seria uma revolução.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Revolução Artística

O homem, tal como o conhecemos, existe a mais ou menos 150 mil anos; a civilização, propriamente dita, existe a mais ou menos 7 mil anos. Uma série de fatores – alguns desconhecidos – possibilitaram esta transição, entre eles, as bruscas mudanças climáticas que aumentaram as dificuldades para caçar, obrigando o homo sapiens moderno a procurar as margens dos rios onde acabou se fixando com a ajuda da agricultura e da domesticação de animais. O aumento do cérebro e, consequentemente, o aumento da capacidade de entendimento é outro fator. Em função dos nossos ancestrais possuírem menos força física em relação aos seus concorrentes – tigres, leões, crocodilos – o instinto de sobrevivência humano procurou equalizar esta disputa com a ampliação das forças mentais. O domínio do fogo, que data de 500 mil anos atrás, e o uso de ervas alucinógenas, no entanto, teriam sido os ingredientes decisivos para esta transição.
De acordo com o documentário Sobre como A Arte Construiu o Mundo II – O Dia em que as Imagens Nasceram os desenhos rupestres eram bem mais do que meras representações das caçadas primitivas, uma vez que as pinturas não reproduziam fidedignamente a realidade, mas um terceiro plano, surreal, quase cubista. A inspiração para tanto vinha dos ritos xamânicos – o equivalente à missa atual -que eram realizados em torno de uma fogueira e mediante o uso de maconha; esta combinação abria, como bem observou Jim Morrison, as "portas da percepção". As metamorfoses do fogo – faíscas, temperaturas e cores – associados aos efeitos da droga faziam com que os primitivos tivessem “visões” ou, como eles mesmos supunham, faziam com que as “almas falassem”.


O surrealismo quase cubista dos desenhos rupestres deriva daí – há linhas paralelas, grupos de pontos, círculos, círculos concêntricos, cruzes, espirais, triângulos e uma série de outras geometrias sobre ou ao redor de figuras humanas isoladas ou agrupadas em cenas de caça, guerra, trabalhos, relações sexuais, partos etecetera. 


O homem não estava simplesmente copiando o que ele via, mas capturando, de uma maneira inovadora, o mundo que o circundava. Este nascimento artístico, por assim dizer, ocorreu a 30 ou 40 mil anos atrás e foi o ponto fundamental para construção, por exemplo, do Império Babilônico, da Civilização Suméria e do Antigo Egito. Pois, como o homem, isolado no tempo e no espaço, poderia ter construído as Pirâmides de Gizé no meio do Saara sem o auxílio da imaginação-criativa?

sábado, 18 de abril de 2015

O Homem Personificado

Assisti a um documentário magnífico intitulado Sobre como a Arte fez o Mundo I onde se conjecturava sobre a possibilidade de a imaginação humana ter sido o nosso grande diferencial em relação as outras espécies.
Numa expedição arqueológica ao nordeste da Áustria, descobriu-se a primeira imagem esculpida que o homem teria feito de si mesmo, a chamada Vênus de Willendorf; a peça, apesar de intacta, não possuía os braços nem as feições do rosto, por outro lado, possuía os seios e o ventre grandes; tratava-se de uma mulher – constataram os estudiosos – mas o porquê d’ela ter sido feita daquela “maneira irreal” não se sabia. Em outras localidades descobriram-se estátuas semelhantes, mas, a 25 mil anos atrás, uma localidade não tinha contato com a outra; então por que as peças se pareciam? A resposta tem a ver com as características da época. Como houve uma mudança brusca no clima, as famílias, que eram nômades, começaram a sofrer com a falta de alimentos, com isso as possibilidades de perpetuação da espécie tornaram-se escassas e o homem, numa tentativa de se reinventar, imaginou-se fértil, como se fosse uma mulher grávida.


O documentário segue com a sua busca, investiga a civilização egípcia, a civilização grega e observa que também aí os artistas tenderam a distorcer a forma humana, tenderam a subverter a realidade.

Logo me recorreu uma passagem de Mário Quintana: “Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: Vem pra dentro, menino, olha o mormaço! Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia lá pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição” (p.204).

[QUINTANA, Mário. Coisas & Pessoas. In: DOS SANTOS, Joaquim Ferreira (org.). As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007]

sábado, 11 de abril de 2015

Em busca da Iluminação

Desde de que li Sidarta, de Hermann Hesse, me tornei um admirador da doutrina budista. O motivo é um só: a conexão com a realidade. Enquanto o ideal cristão constrói-se com base em deuses, semideuses e espíritos, o budismo constrói-se com base na figura do mestre; enquanto o ideal cristão confere ao homem um papel central, o budismo iguala todos os seres vivos; enquanto o ideal cristão considera a felicidade como algo que pode ser alcançado somente após a morte, o budismo considera a felicidade como algo que pode ser alcançado ainda em vida.
título deste blog, ao contrário do que se possa imaginar, não faz referência à racionalidade cartesiana, mas à meditação budista que, por conceito, divide-se em duas fases: a samatha, que estimula a concentração, e a vipassana, que conduz ao entendimento. Assim, voltando-se para dentro de si mesmo, entrando em contato direto com sua natureza emocional, o homem – uma vez que conseguisse se organizar nesse sentido – teria mais lucidez para interagir com o mundo externo. Em outras palavras, partindo de uma conquista pessoal, já que os benefícios da meditação não podem ser atingidos sem esforços, o sujeito se credenciaria às práticas exigidas pela vida.


Os budistas ainda creem num ciclo de nascimento, morte e reencarnação. Esta última vai depender do carma (ações); logo, se a pessoa fizer boas ações, terá um bom carma e, consequentemente, uma reencarnação favorável. A existência, neste caso, iria diminuindo. O homem bom, numa segunda vida, se tornaria um gato; numa terceira vida, um hamster; numa quarta vida, uma borboleta... até desencarnar, até atingir o nirvana final. Deriva daí a máxima “não faça mal nem a uma mosca, pois a alma de sua avó pode estar nela”.
Em um vídeo que assisti, um mestre budista diz: "O que importa é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz. No caso de haver um contradição entre, digamos, a Ciência e os ensinamentos sagrados, então você deve confiar na descoberta".

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Solidões Interativas

Em uma das passagens do livro Sociedade Midíocre, Juremir Machado da Silva diz: “Nas sociedades hipermodernas sem guerras, com expectativa média de vida ascendente e com jornadas de trabalho declinantes, o tempo livre tornou-se o grande problema. O que fazer dele? Pensou-se em fazer de todos os homens poetas, artistas e intelectuais. Mais uma utopia fracassada”. Nos tornamos consumidores; artistas pintam quadros, poetas leem livros, intelectuais promovem revoluções, nós não fazemos nada disso; nós andamos de carro. Como num filme que vi, intitulado American Graffiti, de 1973, onde quem possuísse a máquina mais potente era visto como o maioral, onde quem possuísse a máquina mais potente acabava transando com a mulher mais gostosa; numa cena reveladora, um idiota, que pegara o carrão do amigo para dar uma rolé, intima a mais cobiçada das garotas da cidade, ela se aproxima e, sem se importar com o sujeito, começa a analisar o carango, dizendo coisas do tipo “deve ser muito potente”, “adoro arrancar cantando rodas”; em resumo, trocava-se o serumano pelo objeto – um prenúncio do que hoje é absolutamente normal. Como agentes deste processo -completa Juremir - o carro e a televisão “tem agora a cumplicidade do computador, dos games, dos celulares, dos tabletes e de muitos gadgets sacralizados pelo poder de aliviar as pessoas do vazio humano cada vez mais evidente e produtor de doenças”. É como se o mundo houvesse se tornado um quadro de Edward Hopper:


O atentado contra o avião da Germanwings é a prova mais recente disto. Um homem, aparentemente normal, acima de qualquer suspeita, filho de um gerente de banco e de uma professora de piano, morador de um bairro de classe média alta, tido como uma pessoa boa pelos vizinhos, de repente, não mais do que de repente, mata 150 pessoas com uma cajadada só. Sua ex-namorada, em relato à polícia, disse que se separara de Andreas pois ele se comportava de uma maneira estranha, disse que ele era depressivo, que precisava de muito carinho na vida privada e que prometera a ela que um dia se tornaria conhecido no mundo todo. Pasmem, ó leitores, Andreas Lubitz protagonizou uma chacina em nome daqueles tão sonhados 15 minutos de fama. Abaixo a sociedade do espetáculo!

quinta-feira, 26 de março de 2015

Poesia sem rima

Mostrei um poema à minha prima e, após um rápido passar-de-olhos, ela sentenciou:
Não tem rima!
Foi um choque pra mim – não por causa da opinião em si, afinal, minha prima nunca nem ouviu falar em Mário Quintana, mas pelo fato de que o senso comum pudesse pensar do mesmo jeito.
poesia se divorciou da rima a mais de cem anos, com o advento do Modernismo; Manuel Bandeira, em um de seus célebres poemas, disse “estou farto do lirismo que não é libertação”; depois veio o Concretismo e seus desdobramentos e o poema tornou-se processo; a obra “Unir”, de Walter Carvalho, por exemplo, não possui sequer uma letra:


Hoje a poesia é tudo isso e muito mais, apesar de o senso comum desqualificá-la implacavelmente – rimas e sentimentalidades são o fardo que os poetas carregam, são o preço que os poetas pagam num mundo que só entende de carros e só pensa em dinheiro. Porca miséria! abri o jornal e fui ler. Dei de cara com um poema intitulado “Esperança”, de Letícia Mariano:

Olhe à sua volta,
Abra os olhos,
Perceba as sombras...

Acenda as luzes...
Observe o que está
Sendo feito
Em nosso Planeta!

Imagine um
Pôr do sol
Belo de se ver...

Deixe as luzes
Trazerem esperanças...

Os mares,
Os peixes,
A grama,
O trigo...
Tudo é vida!

Mais uma vez,
Olhe ao redor...
O quadro de escuridão
Se modifica...
Um mundo sem sombras,
Banhado de amor!

- Alegorias do inferno! – sentenciei.
Eu o teria escrito em bem menos linhas.

Olhe à sua volta,
Abra os olhos,
Perceba as sombras...
Os mares,
Os peixes,
A grama,
O trigo...
Tudo é vida!

[Poema extraído do Jornal Zero Hora – edição de 19 de março de 2015, pág.44]

terça-feira, 17 de março de 2015

Impeachment?

No último dia 15 de março o povo brasileiro foi às ruas para reivindicar, entre outras coisas, o fim da corrupção e o impeachment da presidenta Dilma. Foi bonito até; a cobertura televisiva narrava o fato com um tom grave, não sei se para aumentar a audiência ou para fortalecer o significado do protesto; em São Paulo, reduto da Direita, contaram-se mais de 1 milhão de pessoas.
No país recentemente se descobriu o maior esquema de corrupção da História; o PT, partido de Dilma, tem vários de seus membros envolvidos, exceto a própria presidenta. Este fato, associado à divisão política da nação – 48% dos eleitores votaram no candidato tucano – motivaram a passeata contra os ladrões; o manifesto que pedia o impeachment, no entanto, não se justifica. Por que derrubar alguém que foi democraticamente eleito? Por que derrubar alguém cuja conduta moral é idônea? Por que derrubar alguém que segurou a taxa de emprego durante a maior crise econômica dos últimos 70 anos? Não se justifica – é rancor. A oposição, aproveitando-se de um momento difícil do governo, tem instigado o povo contra a presidenta; o medo deles é que o mandato do PT se prolongue para além dos 16 anos, que irão terminar em 2018, pois, quando se fica longe do poder durante um período tão longo, perde-se muitos benefícios políticos, inclusive a possibilidade de roubar; o leitor, mesmo o que não for esperto, sabe do que eu estou falando, sabe que a corrupção não tem partido, sabe que, com impeachment ou sem, a roubalheira continuaria acontecendo; ninguém é burro, tudo é uma questão de matemática, se o PT é o investigado da vez é por que quase todos os cargos pertenciam ou pertencem ao PT, se pertencessem ao Partido Cristão ou ao Partido Verde, então os corruptos seriam os seus representantes; o câncer não se encontra na forma, mas na essência – é na educação moral da população brasileira que está enraizada a doença.
Mas este é um outro debate. Por hora basta dizer: o que a oposição faz agora – jogando o povo contra a presidenta sem medir consequências – é tão grave quanto o que alguns membros do PT fizeram ao se corromperem. 

sábado, 14 de março de 2015

Cartas a um Jovem Poeta

A muitos anos atrás – sete ou oito – encontrei, num sebo, enfiado no final de uma prateleira, um livro que, de cara, me pareceu interessante. Tratava-se de “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke; eu sequer conhecia o autor, mas, depois de umas folheadas, resolvi comprar a obra. A leitura, porém, eu a consumei somente esta semana.
As cartas, que são dez, narram os conselhos que Kappus – um jovem que sonhava em se tornar poeta – recebeu de Rilke. Mas estes conselhos não são de ordem técnica ou crítica, antes disso, “[...] tratam da formação humana, base de toda criação artística”, como bem resumiu Cecília Meireles, no prefácio. Ao invés de falar sobre como se deve escrever um texto, Rainer propõe reflexões do tipo “Já se modificaram muitas noções relativas ao movimento; há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles” (p.64). São palavras de sabedoria que procuram tocar o íntimo. “Até o comer, os homens transformaram em algo diferente: a carência de um lado, o excesso de outro perturbaram a clareza desta necessidade; e todas as necessidades elementares em que a vida se renova tornaram-se igualmente turvas. O indivíduo, porém, pode esclarecê-las para si mesmo e vivê-las às claras (não todos os indivíduos demasiado dependentes, mas pelo menos os solitários).
Sobre a arte de escrever, propriamente dita, Rilke apenas alertava: “Deixe-me fazer-lhe aqui um pedido: leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rispidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra” (p.31-32). O poeta tcheco sabia que tanto a literatura quanto a arte vinham de dentro e não de fora. Prova disto é a escritora brasileira Carolina de Jesus – negra, semianalfabeta e pobre, ela foi a primeira autora a contar como era a favela sob o ponto de vista de quem viva lá. E acabou virando best-seller, sendo traduzida para 13 línguas.
fórmula do sucesso é o nosso próprio mistério: “Por que deseja excluir de sua vida toda e qualquer inquietação, dor e melancolia, quando não sabe como tais circunstâncias trabalham no seu aperfeiçoamento? Para que perseguir-se a si mesmo com a pergunta: de onde pode vir tudo aquilo e para onde vai? Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se?” (p.68).

[RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Porto Alegre: Editora Globo, 1978, 9° ed.]

sábado, 7 de março de 2015

Um monstro dentro da gente

Suzane von Richthofen foi a protagonista de um crime de fazer inveja a muitos mestres do cinema-policial. Quem poderia imaginar que uma moça rica, de 20 aninhos, universitária da PUC-SP e com um rostinho angelical pudesse ser a mentora de uma história tão macabra?
Pois foi. E na última semana – 12 anos após o assassinato dos pais – ela reapareceu para uma entrevista de fachada, ao lado de sua companheira, a sequestradora Sandrão. Com uma serenidade budista, Suzane respondia às perguntas do entrevistador. Disse amar o irmão, mesmo que ele não a amasse, disse que desistira da herança e que fazia planos para uma nova vida, revelando, inclusive, o seu desejo de ser mãe. Foi bonito até. Suzane fala bem, tem um sorriso bonito, é persuasiva... tanto que eu me convenci. “Ela se curou”, eu pensei, “os doze anos atrás das grades mudaram a cabeça dessa menina” e fui dormir, sossegado, acreditando num mundo melhor, na regeneração do serumano.
Três dias depois, porém, um programa de televisão fez um debate acerca do comportamento de Suzane e das coisas que ela falou. Um promotor, que participara do julgamento em 2006, disse que a entrevista havia sido uma encenação teatral e que a fina flor da sociedade paulista – personagem que ela teria representado durante a conversa – era uma jogada-estratégica para convencer os juízes que irão julgar, no ano que vem, a possibilidade do livramento condicional da ré, após decorridos 1/6 da pena. “Se é isto”, eu pensei, “então estamos diante de uma das maiores manipuladoras de que se tem notícia”. E para confirmar que não se tratava de uma calúnia, o promotor apresentou uma prova concreta – uma conta bancária na Suíça, com um saldo de 30 milhões de euros – dinheiro suficiente para se viver uma vida toda. De súbito, minha consciência estalou. “Então é por isso que ela dava risada e parecia não se importar com o lado de fora... com a grana, a moça se mandaria pra Europa e viveria por lá, de cabeça erguida, pois, de acordo com a lei, já teria cumprido a pena, isto é, já teria pago pelo crime”.
Desliguei o monitor, em choque. A fina flor da sociedade paulista, no fundo, era um monstro da pior espécie. Só fui conseguir dormir lá pelas 3 da madrugada, depois de contar muitos carneirinhos. Quando acordei, todo suado, sentia muito medo – não da assassina, é claro, mas das Suzanes que, secretamente, vivem dentro de nós.

domingo, 1 de março de 2015

Tudo Virou Massa

O mundo está carente de ideologias, de originalidade, de alternativas, de líderes, de utopias – o mundo virou massa. Não há mais pelo que lutar a não ser pelo patrimônio pessoal. Se fizessem uma pesquisa sobre o que os indivíduos projetam para o futuro, eu não tenho dúvida de que novecentos e noventa e nove em cada mil responderiam: casa na praia, carro do ano, viagem internacional, ascensão na carreira, dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Não se fala mais em amor, não se fala mais em poesia, não se fala mais em revolução; é como se todas as coisas de natureza subjetiva – difíceis de medir – tivessem perdido o sentido e até o próprio significado. As pessoas se perguntam “pra quê?” e não encontram resposta, não conseguem associar o mundo em que vivem com valores que não sejam materiais, objetivos. Logo, o amor se torna, também, um número, a poesia desaparece, porque não é vendável e a revolução vira um capítulo dos livros de História. Um exemplo: o sujeito, dominado pela lógica capitalista, só namora se a garota for gostosa e só se casa se ela pertencer a uma família importante, ou seja, a condição fundamental para que o relacionamento aconteça não é mais o sentimento interior, mas a aparência, o status externo.
É este o pensamento hegemônico em todos os setores da sociedade – no banco onde eu trabalho, na universidade onde eu estudei, na cidade onde eu cresci, na televisão que eu assisto – não há exceção, tudo foi engolido pelo mesmo buraco, tudo virou massa. Não sei de quem é a culpa – se dos políticos, que confundem o bem público com o bem privado, se dos grandes empresários, que não se cansam de criar novas “necessidades” de consumo, se dos terroristas, que decapitam seus prisioneiros, se dos Rolling Stones, que engravidam suas fãs – não sei, estou pirando. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Manual do Otário

dinheiro, muito mais do que Deus, tornou-se, desde a Revolução Industrial, o grande mito da nossa época. E muitos sujeitos, mesmo os que pertencem à classe operária, rezam, diariamente, por suas bênçãos materialistas. Obcecados pela falsa ideia de que as fortunas se fazem com o suor do próprio rosto, estes pobres-coitados entregam suas almas ao sistema. Fazem 8 horas por dia, durante 35 anos, sem reclamar; chamam o patrão de senhor e, tão logo recebem o primeiro aumento, tratam de adquirir um carro usado. Estes sujeitos acreditam, assim como uma criança acredita em coelho da páscoa, que os bilionários se tornaram bilionários porque trabalharam muito, em média 60 horas por semana, sem esbanjar dinheiro, vivendo com o estritamente necessário, sem usar ou comprar artigos caros ou de luxo. Foi isto que um rapaz comentou numa rede social. Ele ainda disse “[...] acho muito simplista acusar investidores [do mercado financeiro] por ganhar dinheiro fácil, uma vez que a maioria dos ricaços é de primeira geração, ou seja, construiu sua riqueza do zero. Louvável também o trabalhador que luta por seu salário. O problema é que não temos uma cultura de poupança, de ganhar por mérito, de aperfeiçoamento. Pensamos somente no aqui e no agora”. O rapaz falava com tanta certeza que me colocou uma pulga atrás da orelha: “Então quer dizer que a culpa é toda minha?”
Logo, uma crise existencial tomou conta de todo o meu ser. Passei a me sentir um verdadeiro otário, passei a sentir culpa pela minha incapacidade, pelo meu status de pobre e, já no mesmo instante, passei a adorar sujeitos como Eike Batista, Chiquinho Scarpa e Paris Hilton, verdadeiros ícones do materialismo. Passei a acessar sites de fofocas. Comprei a última edição da Revista Caras. Aderi ao método judeu de finanças: guardar sempre um terço do que se ganha.
As coisas começaram a caminhar de tal forma que até as crônicas do Juremir Machado da Silva começaram a conspirar a meu favor. Numa, intitulada “Ser Bilionário no Mundo de Hoje”, ele disse “Saiu, a mais de um mês, um estudo sobre os mais ricos do planeta. Tratei de estudar o assunto. Ainda não desisti de ser bilionário. É só uma questão de tempo e dinheiro. Todo verão planejo entrar para o seleto grupo dos que controlam a grana. Depois, terminam as férias, volto a trabalhar e fico sem tempo para enriquecer. Tenho um ponto em comum com os detentores das maiores fortunas do mundo: sou do sexo masculino. Já é um começo. Sobre 2325 bilionários, 2039 são homens [...]. Minhas chances aumentam com outra característica dos bilionários: eles são casados (eu também). Mas diminuem quanto ao nível de estudo. A maioria possui poucos diplomas ou nenhum. Eu tenho vários. Chega a 35% o índice de bilionários que não terminaram o ensino médio. Já 42% só tem o ensino médio. Apenas 11% fizeram uma tese e embolsaram um diploma de doutorado. Por que eu fui estudar tanto?”
Brincadeiras à parte, o mito do ricaço, digamos assim, quer transformar os 99% da população mundial não-bilionária, num bando de alienados. O mito diz: poupe, trabalhe duro, idolatre o seu patrão, não estude, não abra a sua mente para novas ideias; e se, lá no final, quando você já estiver velhinho, a fortuna não tiver chegado, lembre-se de que a culpa foi sua, porque as oportunidades são iguais pra todos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Os Sobreviventes

Acabei de ler o conto “Os Sobreviventes”, de Caio Fernando Abreu; que maravilha! Quanta teoria! quanto estilo! quanta beleza! Quanta mistura de sensações e sentimentos e sabores e sei lá o quê! As passagens do texto, por si só, nos revelam mil coisas; o leitor que, ao acaso, escolhesse um trecho qualquer, teria material para refletir durante horas. Por exemplo: “Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram saudade, não é isso que te importa?”. A gente consegue perceber o rancor, a ironia. Trata-se de um “casal” que, depois de tentar de todas as formas, “decidi”, enfim, pela separação, que só seria possível se um dos dois desaparecesse ou, no caso, se mandasse para o Sri Lanka.
"Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros”. Ela, num misto de mágoa e ódio, desabafa, põe tudo em cima dele, como se fosse um rio, como se exorcizasse um demônio.
Mas, depois de golpeá-lo, ela muda o tom, e passa a falar do seu próprio fracasso e, na medida em que revela suas derrotas, revela, também, a derrota de uma época (?): “Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo nem eu a lamber boceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois de Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos todos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo Beatles, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca”.
Não havia no que se segurar, o mundo estava desabando e o melhor já havia passado. Restava sobreviver; sobreviver e só: “[...] claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinquenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas”. Parece até que eles se gostavam, parece até que eles tentaram de verdade, só que, não deu. Não deu; as vezes não dá.
"[...] caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar” – ela sentencia. “[...] mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”
Seria o fim ou apenas um novo recomeço? Estaríamos vivos ou seríamos apenas os sobreviventes de uma catástrofe? Não sei, as perguntas nem sempre possuem respostas. “[...] ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo não se esqueça então de me mandar aquele cartão do Sri Lanka [...] que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve pra longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta”.

[ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. In: Os Sobreviventes. Rio de Janeiro: 11°ed., Nova Fronteira, 2009, págs 25-29]

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A ordem mundial é um absurdo

Para conseguir alguma coisa na vida, o assalariado tem de trabalhar 8 horas por dia, de segunda à sábado, durante 35 anos. O investidor esperto, ao contrário, escolhe uma aplicação e, sem ter que cumprir horário, vê seu capital crescer a passos largos e em tempo recorde.
Os fundos de previdência privada reajustados por índices de preços, por exemplo, em 2014 chegaram a render 18%; logo, um investidor que tivesse aplicado 1 milhão, teria ganho 180 mil. Com o dólar foi melhor. Em 28/01/2015 a moeda norte-americana era comprada por R$ 2,57, nove dias depois era vendida por R$ 2,78; logo, um investidor que tivesse aplicado 1 milhão, teria ganho quase 82 mil. E não para aí – com as ações da Petrobrás os resultados foram mais espetaculares ainda. Em 30/01/2015 os papéis da petrolífera brasileira valiam R$ 8,18, cinco dias depois eram vendidos por R$ 10,69; logo, um investidor que tivesse aplicado 1 milhão, teria ganho meros 306.842 mil reais.
O que um assalariado comum leva 35 anos para conquistar, um investidor arrecada em cinco dias: isso é justo? Do ponto de vista do capitalismo, sim; do ponto de vista humano, não. É por isso que Marx falava em revolução, é por isso que os Sex Pistols pregavam a anarquia, é por isso que os terroristas cortam cabeças: a ordem mundial é um absurdo: a nossa sociedade está edificada sobre uma base que favorece uma minoria em detrimento da maioria, sobre uma base que tira do pobre e dá ao rico.
Segundo a Revista Forbes Brasil, 150 bilionários detêm cerca de 13% do PIB do país. Entre eles estão Jorge Paulo Lemann, sócio da empresa 3G, dona de marcas como Budweiser, Burguer King e Heinz; Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook; o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e Lina Maria de Aguiar, uma das herdeiras do Bradesco. São justamente estes sujeitos, donos de verdadeiras babilônias, que aplicam no mercado financeiro; são justamente estes sujeitos que andam de lambroghini, que viajam pra Paris, que saem nas capas de revista; são estes sujeitos e a estrutura que os protege, que pagam os baixos salários que mantêm os trabalhadores comuns acorrentados durante 35 longos anos; somos nós, em contrapartida, que consumimos o hambúrguer, a igreja e a rede social que as empresas deles produzem.

"Quem é maior: Deus ou o dinheiro? Respondem os ingleses que Gold (ouro) tem uma letra a mais que God (Deus)".