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sábado, 7 de março de 2015

Um monstro dentro da gente

Suzane von Richthofen foi a protagonista de um crime de fazer inveja a muitos mestres do cinema-policial. Quem poderia imaginar que uma moça rica, de 20 aninhos, universitária da PUC-SP e com um rostinho angelical pudesse ser a mentora de uma história tão macabra?
Pois foi. E na última semana – 12 anos após o assassinato dos pais – ela reapareceu para uma entrevista de fachada, ao lado de sua companheira, a sequestradora Sandrão. Com uma serenidade budista, Suzane respondia às perguntas do entrevistador. Disse amar o irmão, mesmo que ele não a amasse, disse que desistira da herança e que fazia planos para uma nova vida, revelando, inclusive, o seu desejo de ser mãe. Foi bonito até. Suzane fala bem, tem um sorriso bonito, é persuasiva... tanto que eu me convenci. “Ela se curou”, eu pensei, “os doze anos atrás das grades mudaram a cabeça dessa menina” e fui dormir, sossegado, acreditando num mundo melhor, na regeneração do serumano.
Três dias depois, porém, um programa de televisão fez um debate acerca do comportamento de Suzane e das coisas que ela falou. Um promotor, que participara do julgamento em 2006, disse que a entrevista havia sido uma encenação teatral e que a fina flor da sociedade paulista – personagem que ela teria representado durante a conversa – era uma jogada-estratégica para convencer os juízes que irão julgar, no ano que vem, a possibilidade do livramento condicional da ré, após decorridos 1/6 da pena. “Se é isto”, eu pensei, “então estamos diante de uma das maiores manipuladoras de que se tem notícia”. E para confirmar que não se tratava de uma calúnia, o promotor apresentou uma prova concreta – uma conta bancária na Suíça, com um saldo de 30 milhões de euros – dinheiro suficiente para se viver uma vida toda. De súbito, minha consciência estalou. “Então é por isso que ela dava risada e parecia não se importar com o lado de fora... com a grana, a moça se mandaria pra Europa e viveria por lá, de cabeça erguida, pois, de acordo com a lei, já teria cumprido a pena, isto é, já teria pago pelo crime”.
Desliguei o monitor, em choque. A fina flor da sociedade paulista, no fundo, era um monstro da pior espécie. Só fui conseguir dormir lá pelas 3 da madrugada, depois de contar muitos carneirinhos. Quando acordei, todo suado, sentia muito medo – não da assassina, é claro, mas das Suzanes que, secretamente, vivem dentro de nós.