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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Os deslimites da palavra

No dia 13/11/2014 faleceu Manoel de Barros, um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos. Sua poesia, de caráter artesanal, sempre me transmitiu paz de espírito, bondade, desmaterialização, sonho; a natureza, logo percebi, era um de seus temas prediletos, como se pode ver em “O apanhador de desperdícios”:
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
[...].
Mas não acaba aí. Ao mesmo tempo em que fala da natureza, Manoel de Barros fala do mundo, das pessoas, do valor da simplicidade, como se observa em “O fazedor de amanhecer”:
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Em termos de técnica, o poeta sul-mato-grossense também foi impressionante. Era dono de um estilo original e de um “conceito próprio” de poesia. Em “Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada”, percebe-se estas características:
V
Escrever nem uma coisa 
Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
VI
No que o homem se torne coisal,
corrompe-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana, 
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos,
um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.
Por fim, o resultado da soma de toda esta engenhosidade: uma imensa sabedoria, a capacidade de reinventar o sentido da vida pós-moderna. Depreende-se isto de “Acontecimentos”:
O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
[...].
Manoel de Barros me faz pensar em Charles Chaplin, em Pablo Picasso, em filmes como “E. T. - O Extraterrestre”, em Gandhi, numa consciência universal. Salve a Literatura Brasileira!